Opinião

A sociedade da repetição

A sociedade da repetição

Que razão poderá existir para que não nos consigamos avisar uns aos outros? O que terá feito com que tudo quanto vimos acontecer na China não nos avisasse? Mesmo que tenhamos uma sobra de portugalidade por ali, em Macau, e Macau tanto nos quis ensinar, o que leva a que não consigamos conceber o que nos relatam e nos mostram?

Estive duas semanas em conversas com amigos brasileiros tentando explicar o que aqui se tornava paulatinamente evidente. Serviu de absolutamente nada. A cada instante, tudo era exagero e importava sobretudo manter a festa de aniversário, a caminhada, a ida à praia, o almoço com os netos, a compra diária do pão fresco. Manter a normalidade é mais importante, nem que pelos últimos cinco minutos, do que tomar medidas, ter precaução.

A verdade é que não nos serviu de aviso o que se passou, e ainda passa, no Oriente, como a Europa inteira não serviu de aviso à América. Muito ao contrário. Preponderando entre dois governantes de irresponsabilidade criminosa, Trump e Bolsonaro, esta América dos políticos convidou com pompas imbecis o novo vírus.

Ocorrem-me os vídeos de intenção cómica a que se entregou a humanidade mais moderna. Esgotadas as redes sociais mais comuns, potenciam-se outras, como o Tik Tok, onde a infinidade de utilizadores refaz até à náusea as mesmíssimas falas, as mesmíssimas situações, numa perturbadora aceitação da anedota que já foi contada um milhão de vezes. Com paciência para serem apenas mais um na multidão de iguais copiadores, ninguém parece muito preocupado em se manter fora da caixa, observar de modo limpo, original, o Mundo. O Mundo torna-se a simples, ao que parece bastante, repetição.

A sociedade da repetição, resultado de uma imitação que já vinha sendo gritante, é perfeita para todas as vulnerabilidades. Cada pessoa já se aceita como capturada em certa narrativa que lhe cabe cumprir, como se fosse inevitável. Mais grave, anestesiadas pela condição lúdica que até a desgraça adquire, porque todos os discursos são matéria para esse tão urgente humor, as pessoas perdem toda a capacidade de liderança. Confundidas com o serem simplesmente populares, estão demitidas de se potenciarem como autênticas figuras mudadoras. A imitação, por definição, não convida a mudança alguma. Muito ao contrário, conduz à mais frágil estagnação, o puro vazio. Nenhum caminho.

É diferente da passagem do conhecimento. Isso que devia ser o foco fundamental deste desafio. Exorto a que se ouçam os peritos chineses que, apanhados de surpresa e num país de densidade populacional inimaginável, conseguiram menos óbitos do que a Itália. Ouçamos esses peritos e façamos como fazem. Se querem repetir alguma coisa, repitam a ciência.

Escritor

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