Cidadania impura

Coronavírus e Portugal

Coronavírus e Portugal

A admirável atitude de Armindo Peixoto, proprietário da Armipex, resvala na inexplicável passividade das autoridades de saúde. Avisadas, não houve qualquer instrução nem sequer a devolução de alguma chamada. Nada. Com cerca de 90 trabalhadores, a fábrica teve absolutamente nenhum auxílio, senão o normal envio de uma ambulância que, num impasse, reteve o italiano durante cerca de 4 horas sem dar entrada num hospital.

Graça Freitas, diretora-geral da Saúde, muito falante, aparece na televisão com uma retórica esclarecida a afiançar que Portugal está informado, conectado com o Mundo e preparado para lidar com a epidemia. Enquanto o italiano já havia passado por uma empresa em Vila do Conde e outra em Felgueiras, enquanto esperava na ambulância sem qualquer orientação, Graça Freitas, uma e outra vez, explanava desassombrada sem que nada de prático estivesse a ser feito.

Portugal demite-se de qualquer controlo à chegada. Todas as pessoas continuam a poder ser parados pelas autoridades para saber se compraram um iPhone, mas não para medir temperatura, avaliar sintomas, despistar a epidemia.

Mais grave, ao contrário de outros países europeus que estão a impor quarentena aos cidadãos resgatados, Portugal não criou nenhum dispositivo especial. A lei prevê quarentena compulsiva apenas em casos de doença mental, o que significa que o Estado, que se responsabiliza pelo retorno, deixará à consciência brava de cada um (certamente todos peritos honestos e lúcidos) a opção de se internarem à chegada. Se entenderem que estão saudáveis, rumarão livremente para casa, onde terão certamente os abraços da família para arriscarem numa roleta russa.

Parece-me de uma desfaçatez insuportável. Em Vila do Conde, onde vivo, reside a maior comunidade chinesa do país. O comércio chinês esvazia de clientes. O sentimento xenófobo aumenta. Nunca foram de se misturar e sabemos quase nada deles. Aprendem pouco a língua e revelam um desinteresse enorme pela nossa cultura. Estão num universo paralelo onde o comércio se torna o único contacto. Não fica fácil estabelecer uma relação de confiança.

Almoço com a minha mãe num restaurante chinês todas as semanas. Desapareceram dali os clientes, subitamente. Até ontem, estive convencido de ser um pouco histérico o que via acontecer. Agora, sabendo como ficou Armindo Teixeira sem auxílio, sem resposta mesmo depois de passar em todas as televisões, começo a achar que estamos entregues à desgraça. Resta rezar para que o vírus enfraqueça, talvez não goste do nosso clima, da nossa paciência, de como ficamos quietos no lugar onde a derrocada vai acertar.

Escritor

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