Cidadania impura

Gastronomia ética

É inevitável que voltemos a aprender a comer. Não apenas porque estamos num processo de envenenamento contínuo, distribuindo doenças a níveis cada vez mais elevados, potenciando o aparecimento, desde logo, de todos os cancros, mas porque aquilo que comemos impacta no Mundo como se o devorássemos sem regresso. Ponderar a fome de cada um torna-se agora um desafio ecológico de sustentação básica da vida no planeta.

A ética da alimentação eleva-se do simples bem-estar de cada um, impõe hoje um exercício de consciência que passará obrigatoriamente pela liberdade e partilha das sementes e, certamente, pela aprendizagem de um vegetarianismo equilibrado. Acredito muito que o caminho para uma humanidade efetiva se faça preservando a vida das outras espécies, paulatinamente secundarizadas num planeta cada vez mais pertença dos seres humanos.

Ivone e Joep Ingen Housz acabam de publicar um livro de valor incalculável onde, a pretexto de elencarem as suas receitas culinárias, o mais que fazem é criar pistas para sustentar o futuro. Intitulado, exatamente, "Semear o futuro", edição da Zero a Oito, esta obra é o resultado da experiência com a Quinta das Águias, em Paredes de Coura, onde, além da plantação de todo o tipo de vegetais, instalaram um santuário para animais em risco. O projeto é de uma beleza intensa, Ivone e Joep são de uma beleza intensa, e o livro que nos chega às mãos educa-nos a todos.

Não está em causa, quanto a mim, que nos mudemos para vegetarianos súbita e drasticamente, está em causa que aprendamos a comer e saibamos que defesa nos traz uma alimentação consciente. A alimentação ética é a única forma de favorecer a saúde e o planeta. A única forma de comer e manter a probabilidade de um futuro para uma crescente população mundial, para uma crescente e mais exigente gestão da fome.

Na Quinta das Águias, há um carneiro chamado Zacarias que nos aborda como se fôssemos seus amigos imediatos. Envelhece sem medo, tem o ar gordo de indivíduo que sobretudo descansa. Brincar com o Zacarias, no seu ar glutão, à procura de guloseimas nas nossas mãos, é regressar desse lugar de predador e encontrar, afinal, a oportunidade de outro modo de ser, um modo mais gentil, mais harmonioso, bem mais gratificante e feliz. O Zacarias, sem saber, veio mostrar como é mais importante buscar as minhas mãos com aquela graça do que ser imaginado para um prato. Chama-se lealdade, ou uma verdadeira responsabilidade.

Escritor

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