Cidadania impura

Lição de imprensa

A extensa matéria de Miguel Carvalho na revista "Visão", em torno da figura abjeta de André Ventura e seu partido torpe, é mais do que a necessária colocação dos pontos nos is acerca de uma usurpação do princípio democrático, é também uma demonstração de como a imprensa se tem permitido incluir na normalidade aquilo que devia ser denunciado desde o início como aberrante.

A ínfima percentagem de cidadãos que votaram no Chega nunca justificaria o frenesi gerado com qualquer impropério que André Ventura decida proferir. Ele não deveria nunca ser visto como a oposição que importa, porque não foi eleito senão para ser uma nota de rodapé na extensa Assembleia.

A imprensa não pode render-se ao espanto fácil, porque para isso voltaríamos ao tempo do "Incrível", o jornal de miriabilia que procurava apavorar-nos com todo o tipo de monstruosidade. E a imprensa não pode investir na própria demissão. O público quer aquilo que faz sentido e que produza verdade e concorra para o esclarecimento de cada um acerca de todos os planos da vida em sociedade.

É sintomático que prepondere no panorama nacional um projeto como o do Polígrafo, porque toda a imprensa deveria ser um gigante e empenhado polígrafo, interessada num escrutínio rigoroso, ao invés de aproveitar a boutade, o boato, a mentira ou sequer a verdade cortada ao meio.

À defesa de ideias inconstitucionais, pela parte da imprensa tem de corresponder uma aturada responsabilização, exigindo que as estruturas dos vários poderes funcionem até que nenhuma inconstitucionalidade possa passar impune.

A defesa da pena de morte ou a intenção de discriminar qualquer etnia seriam o bastante para que todos, e a imprensa na frente, não descansássemos enquanto não se julgue e condene quem encabeça algo que não é mais do foro da opinião, é do foro da inconstitucionalidade, e essa é uma agressão inaceitável ao edifício legal que estrutura o país. Essa é uma agressão inaceitável num dirigente eleito para representação numa democracia que já decidiu que não comporta tolerância para com ideias deste tipo.

A matéria de Miguel Carvalho é um manifesto de jornalismo. Não admira que, mesmo soterrados em notícias e especulações sobre a pandemia, este artigo se tenha tornado numa das conversas mais urgentes e profícuas da semana. Ele é sobretudo uma chamada de atenção para a soberania de um poder que a imprensa tem de decidir se quer continuar a deter ou se entregará de mão beijada a um futuro de redes sociais e pura manipulação.

*Escritor

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