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Opinião

Muito menos graça

Jerónimo de Sousa já havia dito de Marisa Matias que esta era "engraçadinha e populista", como se fosse uma moça algo decorativa na política nacional, a fazer o seu percurso pelo mesmo sem fundo com que passam os troca-tintas.

Que o PCP nos vai deixando umas pérolas amargas de um conservadorismo decadente já não é novidade. O silêncio ou apoio a regimes opressivos de extrema-esquerda será o que mais repulsa causa, estando muito além do que pode ser uma ideologia e colocando-se como uma muito duvidosa questão de cariz moral. A opressão, à Esquerda ou à Direita, é imoral, não é um ponto de vista, não é uma opção.

Marisa Matias tem nada de engraçadinha ou de populista. É uma das pessoas mais bem preparadas da nossa política, capaz de se manter informada e elegante quando a desvalorizam, sobretudo, por ser mulher. Não esquecerei nunca a sua campanha às presidenciais, com Marcelo Rebelo de Sousa a ganhar sem esforço. Matias foi aquela que mais criou profundidade numa corrida grandemente esvaziada de conteúdo. O seu esforço foi impressionante, recusando dar de barato a disputa e enriquecendo o debate, em todos os instantes, como quem nunca se inscreve para a derrota. O segredo de Marisa Matias é esse, ela pode não estar num partido de grandes maiorias mas a sua lisura moral não lhe permite desprestigiar o eleitorado baixando os braços.

A frustração que me causa o veto do PCP à sua eleição para a presidência do grupo parlamentar Esquerda Unitária Europeia acontece porque admiro João Ferreira e espero dele um novo tempo para o seu partido. E frustra-me porque o cargo que Matias poderia ocupar não se impõe ao coletivo de 41 eurodeputados, é um cargo diretivo que propende para uma representação sem poder, que não vincularia sem remédio nem João Ferreira nem os cipriotas.

É curioso como a Esquerda se mede em milímetros e a Direita em largas milhas. A Esquerda escrutina-se e inferniza-se por detalhes, a Direita convive consigo mesma entusiasticamente, coligando-se numa cumplicidade que já poderia haver ensinado à Esquerda o leviano de se boicotar a si mesma.

Aprecio que o Bloco tenha caminhado para uma consciência mais europeísta ou, ao menos, menos anti-Europa. Estou longe de concordar com cada uma de suas convicções, mas sou por uma comunidade única incondicionalmente e sou por pessoas brilhantes e de árduo trabalho, como é absolutamente Marisa Matias. Tendo sido dada como favorita para a liderança da Esquerda Unitária custa-me que o colega português não a tenha apoiado. Gratifica-me a cordialidade da eurodeputada recusando polemizar. Noto, mais uma vez, o atabalhoado do PCP ao fugir à assunção e à explicação cristalina do seu veto. Com isto, vão mudando os tempos e os eleitorados. Só revela que Matias, paulatinamente, deixa bem claro que não está para graças.

*ESCRITOR

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