Cidadania impura

Pessoas de boa índole

Pessoas de boa índole

Perguntei a uma ativista que papel seria o de um homem solidário com a causa das mulheres no advento do feminismo. Respondeu-me que seria o de ouvir. Perguntei como ficariam os homens que pensam o papel das mulheres, os seus direitos e a sua dignidade, os seus sentimentos e a justiça. Respondeu-me que os homens procuram usurpar o feminismo. Querem inscrever-se no movimento porque, mais uma vez, tentam chamar a si o curso da história, para decidir o que deve ser decidido expressamente pelas mulheres.

Falei do meu romance "A desumanização", no qual passei quatro anos construindo a voz de uma menina, ponderando sua menstruação, compadecendo-me com sua desgraça particular e com o modo como os homens estabeleceram um Mundo onde ela parece não caber. Disse-me que estou a roubar o lugar da mulher. Estou a chamar a mim algo que não me compete. Eu, sinceramente, pensei sempre que investi ao menos quatro anos (para não dizer a vida inteira) à causa das mulheres, convencido de estar a oferecer algo e não a roubar. Na verdade, ninguém senão eu pode escrever os livros que escrevo. Se os fizesse apenas com personagens masculinos certamente me sentiria elaborando um Mundo exclusivo dos homens, o típico "Clube do bolinha". É, pois, com espanto que ouço a tese de que, como homem, não me compete a hipótese literária das mulheres porque isso pode significar tomar o seu lugar, roubar o seu lugar.

Julgo que há um feminismo tóxico que já não é um ativismo, é uma opressão. Uma opressão para com os homens como um todo, igual a uma alergia, e uma opressão para com mulheres que vivam em outros padrões, diria, outra empatia por um coletivo que inclui homens.

Frustra-me profundamente que o feminismo possa ser uma radicalização fundamentalista como algumas posições de fé. A fé, largamente irracional, só é resposta para uma pessoa, não pode ser padronizada. A fé é da intimidade. O feminismo fará sentido enquanto humanismo, se for uma substituição rigorosa da merda que o machismo é então, por definição, é uma merda também.

O papel da pessoa de boa índole em todas as questões da humanidade é essencial e justificado. Independentemente do meio de suas pernas e do seu património histórico, a pessoa de boa índole importa para estudar e dignificar a questão das mulheres e dos homens, dos animais e do ambiente, da doença, da poesia e do sonho. Não há movimento decente que possa excluir pessoas decentes. Isso seria indecente, seria a ruína do movimento.

Posso compreender de onde vem a ferocidade do feminismo, entendo bem como a história nos levou a este resultado e a esta necessidade de grito, no entanto, a raiva não pode sustentar um argumento de futuro. Ela é emocional e opera na irracionalidade. Um movimento social não pode ser irracional. Ele precisa de pautar-se pela ponderação, o esclarecimento, e tem de destinar-se à paz. Se for apenas uma vontade de vingança, uma proposta de guerra, já falhou. É uma aberração como tantas outras que o passado dos homens construiu. Estariam as mulheres a começar pelo mesmo erro, a redundar na mesma natureza imprestável que tanto necessitamos, todos, de combater.

*Escritor

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