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Opinião

Skapinakis

A geração dos grandes mestres da arte portuguesa, esses ainda exímios no desenho, pintores e escultores estabelecidos antes da epidemia do vídeo e da instalação, vai terminando.

O tempo depois de Pomar, Resende, depois de José Rodrigues, Jorge Pinheiro ou Ângelo de Sousa, ficou inteiro nas mãos de escassas figuras magníficas, como Graça Morais, Paula Rêgo, Cruzeiro Seixas ou Nikias Skapinakis. O que acontece nas gerações mais novas traz, obviamente, maravilha mas tem perdido na inequívoca atenção ao traço, essa espécie de estrutura fundamental que é o desenho e que se revela nos excecionais.

As crises tendem a afinar certos excessos e a recente conteve a demasia de vídeos e instalações que, as mais das vezes, resultavam em alarido pouco memorável. Com as finanças em risco, subitamente, parece que ninguém duvida daquilo que importa, favorecendo o regresso dos que são capazes de pintar, esculpir e desenhar.

Entre os olímpicos, expondo na Galeria Fernando Santos (Rua de Miguel Bombarda), está Nikias Skapinakis, um reconhecido imperador da cor. Curiosamente, por surpresa total, expõe pretos e brancos, lugares gélidos ou sombrios, lugares clareando ou escurecendo, que somam ao universo do artista a impressão mais espiritual de sempre. Passamos entre as imagens iguais a chegarmos ao princípio de todas as coisas. Um tempo que parece inteiro recomeçar, impoluto, como se perfeito.

Há muito que o mestre Skapinakis me vem deslumbrando, com esta exposição, que fica na História da arte em Portugal (serviço público prestado por uma galeria privada, uma galeria comercial), pressinto que declara a fratura grave na sociedade que regride nos valores e polariza seus cidadãos. Sob o título "Descontinuando", a interrupção que nos ocorre é a da própria humanidade, projeto que se adia sem promessa de retorno.

Vejo aquele imbecil francês dizer que viola a mulher todos os dias e que esta está já farta e sei bem que, para a salvação possível, me escondi na paisagem pura de Skapinakis. É como se a tivesse podido trazer para casa. Está na ideia. A arte dos muito grandes habita-se. Não serve de alienação, serve de espaço sagrado de meditação. Para suportar o grotesco da semana, desta vez, o que vai na Fernando Santos foi a solução. Devagar, assim que respire fundo, ponderarei o que acontece na cabeça de um homem para julgar legítimo provocar sua interlocutora dizendo que viola a mulher todas as noites. Esse vocabulário é criminoso. Degrada toda a construção humana. Tão cedo não quero desabitar os quadros de Skapinakis. Não quero mesmo.

*Escritor

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