Opinião

A vantagem de ter SNS

Hipnotizadas pelos odores consumistas que infestam as cidades na aproximação ao Natal, centenas de pessoas esperavam ontem, dentro das viaturas, pela abertura de vagas para entrar num centro comercial do Grande Porto.

Tantas preocupações, tanta tristeza face à perspetiva de uma consoada passada longe dos avós, mas nada trava a indomável vontade de encher todos os sapatos do armário com presentes, ignorando a pandemia e controlando os nervos que costumam soltar orquestras de buzinas sempre que se conjuga a pressa com as filas de automóveis.

Na véspera, as paróquias do Porto tinham-se unido no sentido de colocar na agenda pública o facto de se estar a esgotar a capacidade de ajuda às solicitações de pessoas que não têm o que comer. E a nossa solidariedade anda assim, neste triplo balanço impossível de equilibrar, entre a preocupação de dinamizar a economia, a necessidade de responder aos mais necessitados e a vontade de desembrulhar prendas.

Não estamos sozinhos nisto. De uma forma ou de outra, a covid-19 deixará um composto de miséria em todos os países. E num dia como o de hoje, que devia ser marcado pela aprovação do fármaco que possibilitará à União Europeia iniciar a campanha de vacinação, o espaço mediático surge preenchido por novas preocupações, em linha com o surgimento de uma mutação do vírus que começa a travar a entrada e saída de pessoas em Inglaterra.

Mas não há como não confiar na ciência e, agora como nunca, nos profissionais de saúde, de novo chamados a um esforço adicional. Desta vez, o de ter de vacinar milhares de portugueses em tempo recorde. Apesar das limitações, neste campo, há razões para encararmos os próximos meses com confiança, porque a democracia introduziu em Portugal o Serviço Nacional de Saúde (SNS). Em países bem mais poderosos, onde também há fome, não há SNS.

*Chefe de Redação

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