A abrir

Até à derrota final

O grande problema do Sporting é, na génese, o mesmo que afeta a sociedade portuguesa. Reside na total ausência de qualidade, seriedade intelectual e formação da classe dirigente. A quantidade de ex-governantes, políticos, altos quadros do setor bancário e empresários envolvidos, por exemplo, em casos de corrupção serve de amostra. Não dá para enganar. O facto de os políticos aparecerem, agora, como arautos do bom senso a comentar a crise do Sporting chegaria a ser cómico, se não estivéssemos a viver um período de gravidade extrema, em que profissionais de futebol são atacados por bandidos no local de trabalho. Mas por que razão não falta quem agora aproveite os microfones para debitar opiniões tontas, tendo estado calado quando algo na mesma linha se passou num treino do Vitória de Guimarães? A resposta é óbvia e está no aproveitamento da projeção mediática de um dos maiores clubes de Portugal.

Esclarecida a questão desta colagem da classe política, tantas vezes em silêncio face a temas bem mais importantes, regressemos ao Sporting e aos seus dias negros. Em vez de andarmos a dissecar a personalidade do presidente Bruno de Carvalho, devíamos era tentar rapidamente perceber como é possível ter recebido, há três meses, o apoio de quase 90% dos associados em assembleia-geral, até dos que, agora, congeminam, no escuro dos gabinetes, uma fórmula para o tirar da cadeira do poder. Sejamos claros: as redes sociais não são a sociedade, mas dão-nos, cada vez mais, pistas para a interpretar: quem nunca sentiu uma alegriazinha ao ver os ataques do presidente do Sporting aos rivais? Poucos estarão inocentes, pois se agora o seu foco está apontado ao Benfica, esteve, quando chegou à presidência, direcionado ao F. C. Porto. Nesta caminhada rumo ao precipício, poucos escaparam ao discurso de um dirigente diferente dos outros, que se autoproclama "presidente-adepto".

Perante este quadro, ninguém é ilibado, embora a grande fatia de responsabilidade tenha de ser endossada aos sócios do Sporting, que se deixaram seduzir pelo discurso bélico e irrealista de Bruno de Carvalho. O futebol é uma seara propícia ao fogo do populismo. Não é de hoje. E será sempre assim, enquanto não percebermos todos que, no fim das competições, só um clube pode vencer. Mas Portugal, infelizmente, continua a ser o único país do Mundo onde os três resultados possíveis são vitória, empate e... culpa do árbitro ou de fatores externos. A derrota, pura e dura, não existe.

EDITOR-EXCUTIVO-ADJUNTO

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