Opinião

#boneco_na_rede

As redes sempre deram problemas. Principalmente aos pescadores, embora fatais apenas para os peixes, cujas histórias de vida têm tantas vezes final triste, no calor infernal de um fogão.

No irrespirável mundo novo, as redes ganham projeção. Já não é preciso ir à pesca ou à baliza para ser o rei das redes. Qualquer um pode ter bom espaço na teia. Antes da pandemia, a dependência das redes sociais divertia-me, provavelmente porque valorizo o contacto direto com os interlocutores. Entretanto, como já nem na rua se pode tomar café, é natural que o convívio se desvie para plataformas alternativas, na minha perspetiva mais tristes, carentes do cheiro e do calor do aperto de mão. É o que há.

Só acho absurdo por lá se levar as discussões tão a sério, ao ponto de terminarem em insultos e zangas. Se um tipo estiver no café com calças verdes às bolinhas amarelas, todos olham mas ninguém o aborrece; se aparecer assim no Instagram, arremessam-lhe impropérios. Até as brincadeiras ganham contornos de fator de agitação social, como aquela da Cristina Ferreira, ao dizer que o presidente da República estaria presente numa festa. Afinal, era só o boneco. Chegamos, assim, a um mandamento das redes sociais: naqueles espaços, ninguém fala para o boneco. Talvez esse seja o segredo de tanto sucesso.

Jornalista

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