Opinião

#Chifres_e_gnomos

Sou um apaixonado pela filmografia de David Lynch, por isso aquele quadro no interior do Capitólio não me é indiferente. E a única coisa que me ocorre na mesma escala, enquadramento e dimensão, é um filme do Lynch.

O maluquinho com um par de chifres e uma raposa à Robinson Crusoe, ladeado por dois gnomos barbudos, mais as bandeiras a compor a tela, tendo como cenário o magnífico interior da sede da democracia nos Estados Unidos. Lindo e, simultaneamente, tocante de tão triste, por o filme terminar com mortos e um fantasmagórico golpe na Constituição das constituições (dizem eles). Ao contrário do que acontece nas obras de Lynch, não é preciso meditar muito para identificar os pontos cardeais da trama. Se houvesse uma lição na composição, seria simples e curta, bem à medida dos cérebros rudimentares que orquestraram o assalto ao Capitólio, os de Trump e dos seus mais fiéis e mais loucos seguidores. Quando assisto a um filme assim, acontece-me uma de duas coisas: vejo outra vez logo a seguir ou limito-me a flutuar, fascinado pela brisa dos planos inesquecíveis. Esta semana foi diferente. A única coisa que me passa pela cabeça é tudo fazer para nunca me deixar governar por um palhaço cor de laranja.

Jornalista

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