Opinião

Descredibilizar a esperança

Descredibilizar a esperança

Tudo aquilo que não precisávamos está a acontecer. E não, não falo apenas da pandemia.

Sempre desconfiei daquela ideia feita de que este pesadelo global haveria de trazer à superfície o melhor da sociedade, mas o contrário acontece mais vezes, o pior torna-se latente e ficamos sempre na dúvida sobre se os responsáveis por atropelos vergonhosos serão punidos.

As embrulhadas recentes no processo de vacinação movimentam-se nessa zona nebulosa que parece pairar "ad aeternum" sobre Portugal. E existem dois problemas, ambos fáceis de explicar, mas nenhum deles admissível.

O primeiro reside na tradicional política do desenrascanço, sempre atrelada ao amiguismo, tão enraizada no nosso país. Se alguém que colhe batatas em excesso as oferecer a um conhecido, ninguém tem nada a ver com isso, mas se a horta é comunitária e há agricultores a passar fome, a situação torna-se incompreensível. A necessidade de vacinas é evidente, elas são o único sinal de salvação para milhares de pessoas.

Ninguém tem o direito de galgar vedações para passar à frente na fila, nem de decidir arbitrariamente sobre quem a deve receber primeiro. E isto conduz-nos ao segundo grande problema. Também recorrente. Em relação aos prevaricadores, aguardemos que a Justiça funcione. Só que é impossível esperar o mesmo quanto ao apuramento de responsabilidades junto dos grandes decisores, os que nos gabinetes rabiscam planos de salvação sem sequer terem em conta que é necessário dar indicações sobre a forma de atuar quando existem sobras nas doses dispensadas às instituições.

Nestes casos, costuma morrer a culpa e sobreviver a incompetência, sob o pretexto de em tempo de guerra não se mudarem generais, mesmo que o comando nos deixe mais perto do precipício ou, igualmente grave, contribua, com caos e incompetência, para descredibilizar uma esperança que, neste quadro negro, muitas vezes é tudo o que nos resta.

*Chefe de Redação

PUB

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG