Opinião

Duas cabeças, uma sentença

Duas cabeças, uma sentença

Portugal deve ser o país onde mais vezes são exigidos pedidos de demissão. Em sentido oposto, também o será no que concerne à não efetivação dos mesmos. Uma e outra coisa estão interligadas.

O rasgar de vestes dos políticos adversários - às vezes donos de telhados de cristal que quebram ao mínimo sopro - sempre que algo corre mal contribui para a descredibilização de uma ação que seria a mais correta para alguns titulares de cargos públicos.

As trapalhadas em que se viu, ao longo dos últimos anos, envolvido o Ministério da Administração Interna, justificariam a retirada de Eduardo Cabrita, mas continuamos à espera. Ainda por cima, ao contrário do que disse há um par de semanas no Parlamento, a sua tutela continua a pisar a linha vermelha em todos os objetivos, como se pode ver adiante nas páginas desta edição - desta vez, é a sinistralidade a minar um trajeto que já só Eduardo Cabrita considerará positivo.

Fora do Governo, mas também dentro do Partido Socialista, o presidente da Câmara de Lisboa apresenta-se em linha com o "daqui não saio, daqui ninguém me tira". Os sucessivos envios de informação sobre manifestantes para países estrangeiros é desvio suficiente aos valores da democracia para justificar uma retirada honrosa, mas Fernando Medina mantém-se firme e candidato do PS nas autárquicas.

Cabrita e Medina são dois titulares de cargos públicos que, se estivessem em funções noutras latitudes, tinham ido de férias mais cedo, mas continuam a acreditar que o furacão em que se enfiaram há de desacelerar, até ser travado pelo esquecimento, quando aparecer outro alvo em quadrante diferente. Aqui chegados, lá volta o futebol a dar jeito aos políticos, com a transferência dos holofotes para Fernando Santos, "motorista" que conduziu a seleção ao melhor e ao pior Europeus de sempre. Há, porém, uma diferença. E é grande: Fernando Santos foi contratado, só tem de prestar contas à Federação, ao contrário dos políticos, que deviam "entregar a cabeça" aos eleitores quando se justifica, poupando-nos à necessidade de exigi-la.

*Chefe de redação

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