Opinião

Futebol e pouco mais

Até à passada quinta-feira, a Justiça estava a fazer o seu trabalho, a investigar o que deve ser investigado.

Metade do país entendia que tudo estava bem com os juízes e o Ministério Público. Para a outra metade, estava tudo mal: falta de seriedade, investigam de um lado, não investigam do outro. Um problema a sério. Na sexta-feira, os papéis inverteram-se. Quem achava que tudo estava bem passou a ver enxames de corruptos no sistema judicial; quem desenvolvia a teoria do caos advoga agora que está a ser feita justiça, quando o caso e-Toupeira ainda nem sequer se encontra na fase de julgamento, menos ainda decidida a instrução, uma vez que a decisão de não pronunciar a SAD do Benfica já tem recurso por parte do Ministério Público. Tomando o pulso aos debates de televisão, às redes sociais ou às discussões de café, é neste projeto de sociedade, circunscrita a um permanente F. C. Porto-Benfica, que nos inserimos.

Na edição de ontem, o JN denunciou uma lacuna numa lei, aprovada por unanimidade no Parlamento, que impede os juízes de aplicar aos "stalkers" a proibição de contacto com as vítimas. Normalmente mulheres, são expostas ao risco porque só após a condenação - e conhecemos bem a velocidade do sistema judicial -, estes predadores podem ser afastados da presa. Não assisti a grandes discussões sobre o assunto. Vi a notícia, como é habitual, copiada num ou outro meio de comunicação, sem terem a decência de citar a fonte. Nenhum debate, nadinha. Pode ter-me escapado alguma coisa, é certo. Mas este é mais um exemplo do valor que damos às coisas verdadeiramente importantes. O que aconteceria se presas e predadores fossem clubes de futebol? Então, sim, a incompetência de quem legisla e o drama da vítima seriam tema forte em qualquer canal de TV, rede social, ou balcão de bar. Enquanto país, enquanto coletivo social, a dura realidade é que não saímos disto.

Editor-executivo-adjunto

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