Opinião

Apagão humanitário

O Mundo despertou para o domingo com o apocalipse do século XXI atrás da almofada. Nem Facebook, nem Instagram, nem WhatsApp. Nada. Ou será que era tudo? Não tenho certezas sobre se o bom, o bom mesmo, reside em ignorar as redes sociais ou tê-las por perto. Mas são cada vez menos os que passam pela vida sem passar por elas. É uma evidência tão inquestionável que nem precisa de uma fotografia de um buraco negro a certificá-la. Goste-se muito ou pouco, a realidade é que o apagão na quinta do Zuckerberg projetou ondas de choque que varreram o planeta, foi tema neste domingo, o nosso em tons cinza chuva molha-tolos, soalheiro o de Moçambique, mas não menos nubloso. Para mim e para uns milhares que terão lido a crua, a dura, a extraordinária reportagem escrita pelo José Miguel Gaspar, ontem publicada no "Jornal de Notícias".

O Homem global que esperneia com a escuridão súbita das redes é o mesmo que fecha os olhos, adormece e acorda todos os domingos na almofada da ignorância sem perceber, sequer, as atrocidades grau-milhão na escala de Richter cometidas em países onde ser pobre é menos mau, porque a maioria das pessoas vive na miséria absoluta. Em Moçambique, "onde quem nada tinha perdeu tudo" com a passagem do ciclone Idai, é assim, contou-nos, chocou-nos o Gaspar, sem meias palavras. E, como cá, o fardo é ainda mais pesado para as crianças e para mulheres como a LIB, que abre o corpo e a alma à violação, qual santa mumificada, porque a alternativa é não receber um saco de arroz para matar a fome aos filhos, antes que a fome os mate a todos.

Entretanto, é segunda-feira. O Facebook já está em pleno, o Instagram e o WhatsApp também. O Gaspar já deve ter chegado a Portugal. O Zuckerberg apresentou desculpas, o Homem ainda não. E o apocalipse continua lá. Em Moçambique.

* EDITOR-EXECUTIVO