Opinião

Itália à espera de Ronaldo

Itália à espera de Ronaldo

A saída de Cristiano Ronaldo do Real Madrid projetou um certo sentimento antimadridista em Portugal, o que faz tanto sentido como a histeria em redor do clube espanhol vivida durante os últimos nove anos no nosso país. É normal uma parte significativa dos portugueses vibrar com as vitórias da maior estrela do desporto nacional - e simultaneamente compatriota mais famoso além-fronteiras na atualidade -, ainda mais tratando-se de alguém como a agora estrela do campeonato italiano, que não esquece as origens. Mas o resto tresanda a idolatria de trazer por casa, e nalguns casos, mais raros, a bajulice interesseira. Sejamos claros: Cristiano vai continuar a carreira na Juventus por vontade própria, o Real Madrid encaixa 100 milhões de euros - o que tem isto de anormal neste futebol há muito transformado numa indústria de milhões? Nada, nem Ronaldo tem culpa disso, obviamente. Mas não encontro motivos para esta comoção do adeus. E sou um admirador incondicional do madeirense, pelo talento, pela capacidade de trabalho, pela persistência, pelos feitos incomparáveis e, arrisco, inultrapassáveis.

Nem todos pensamos assim, mas a realidade é que poucos ficam indiferentes a uma transferência desta dimensão. Em Itália, por exemplo, enquanto os tiffosi da Juve contam as horas para a chegada do português, os trabalhadores da FIAT estão escandalizados com os milhões do negócio e do salário, porque os patrões do clube também são proprietários do gigante da indústria automóvel onde, segundo os sindicatos, a mão de obra é paga de forma miserável. A indignação é tanta que os funcionários da FIAT marcaram uma greve, de domingo a terça-feira. Mais uma vez, a culpa não é, seguramente, de Cristiano Ronaldo. E até será, na génese, dos próprios adeptos, que permitiram que os clubes tivessem donos eleitos pelo capital em vez de direções sufragadas por sócios.

Editor-executivo-adjunto

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