Opinião

O sucesso de escrever com o dedo do meio

O sucesso de escrever com o dedo do meio

Admito que me deixa um bocadinho bem disposto ver que o meu filho não dispensa dois objetos antes de sair de casa: um chapéu e um livro.

Na minha qualidade de pai zeloso, fico descansado quando começa a chover ou o sol carrega com força - situação pouco vista neste verão português -, pois sei que se passeia com uma proteção para a cabeça. Moderadamente preocupado, não sou dos que estão em constante sobressalto ou vivem no temor da iminência de eventos apocalípticos, mas se fosse, o chapéu ainda transmitirá maior conforto, pela capacidade de evitar, por exemplo, galos desconfortáveis na sequência de uma chuva de meteoritos. Ou de sapos, para quem acredita nas pragas bíblicas arremessadas ao Egito.

De volta ao mais importante, interessa-me, sobretudo, o facto de este jovem adulto carregar a leveza de um livro numa das mãos. O gosto pela leitura de livros e jornais começa a ser, parece-me, cada vez menos comum nas gerações mais jovens. Seria simplista atribuir-lhes a responsabilidade toda por deixarem a leitura para segundo plano. A culpa, obviamente, não é só deles. A evolução atirou-nos para isto e, se calhar, eles até passam mais tempo a ler do que nós há vinte anos, só que de outra forma. Não precisam de "comprar" notícias, porque estas vão ter com eles. Chegam-lhes em forma de alerta no telemóvel, no tablet, no computador, no relógio... É só dedilhar. E, quando há dias conversava com uma jovem, ela até me explicava que, no caso das edições em papel, existe a desvantagem de estarem desatualizadas logo a meio da manhã, observação que faz algum sentido, além de estarem amplificadas pelos canais de notícias que, sem produção própria, se dedicam a reciclar o trabalho dos jornais ao nascer do sol.

A venda de livros caiu mais de 20 % desde 2009. Este dado estatístico encerra um drama para o setor livreiro, mas não só. A recuperação económica não inverteu a tendência de queda e creio que, a médio prazo, enfrentaremos um problema de défice de conhecimento e de falta de qualidade na escrita, uma vez que a leitura emerge como forma mais eficaz de resolver estas duas carências. Portugal, no entanto, reserva-nos sempre uma surpresa. Como escreve o jornalista Sérgio Almeida nesta edição (págs. 30 e 31), os livros com palavrões no título estão a vender-se muito bem por cá, dominando os tops. Tendência estranha, o vernáculo está a seduzir os consumidores; arreliadora ironia, ser uma bosta não só não é condição suficiente para não vender, como trazer "bosta" no título ainda ajuda ao sucesso destes livros escritos com o dedo do meio.

* EDITOR-EXECUTIVO