Opinião

Pais e filhos

Tantas vezes crítico em relação à realidade do nosso país, foi no cantinho de um texto que encontrei motivo para encarar o domingo com otimismo: Portugal encontra-se entre as nações que mais bem tratam as crianças, apenas superado por Noruega e Finlândia, num ranking elaborado à escala mundial.

Lamentavelmente, nem todas as notícias são boas. Pelo contrário. Porque enquanto houver um bebé, uma criança, um jovem atirado sozinho à vida, nada está bem. Um só já seria muito. Mas são mais. São oito bebés abandonados à nascença, quase 300 menores rejeitados pelos progenitores em Portugal, no ano passado. Ao observarmos este quadro, todos os nossos problemas e dramas do quotidiano ficam mais pequeninos.

Desta vez, porém, a culpa não é do Estado, pelo que o alarme toca a rebate, porque nos impressiona a coragem para quebrar os laços de uma relação à qual nem os animais são insensíveis, tantas vezes bem mais zeladores das respetivas crias. Nem sequer podemos dizer que não fomos avisados. Sabemos que não é fácil criar um filho, menos ainda dois, três, quatro, e até acredito que por detrás da separação existirá quase sempre o drama de uma mãe ou um pai desesperados, mas nunca justificará descartar o que mais vale a pena. Mesmo sem acreditar em condições a priori para a felicidade plena, tenho para mim que somos mais felizes com filhos. Eles conseguem transformar dias maus em bons, possuem a fórmula mágica para nos libertar de egoísmos, ensinam-nos que o segundo plano pode ser o mais conveniente, ou até aquele com que sempre sonhámos sem saber. E nas horas em que a pressão do dia a dia mais nos atormenta, até aquela luta de gerações que tanto nos incomoda, a adultos e jovens, pode ser, afinal, o bem maior que a vida de pais e filhos possui.

*Editor executivo-adjunto

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