Opinião

Porto, Lisboa e paisagem

Porto, Lisboa e paisagem

Que o Governo foi apanhado de surpresa com a greve dos motoristas de matérias perigosas, já não restam dúvidas. Mas até por isso a reação devia ter sido mais cautelosa. Abrir a requisição civil no Grande Porto e na Grande Lisboa é desprezar as populações que vivem longe dos grandes centros.

O carinho com que António Costa trata descentralização, regionalização e derivados aparenta resultar mais do taticismo político do que de uma evidente preocupação com um país onde todos os momentos são aproveitados para cavar mais fundo no abismo de assimetria entre litoral e interior.

O Governo preocupou-se com os cerca de 4,5 milhões de habitantes que vivem nos dois maiores centros urbanos, acautelou a chegada e saída de pessoas dos dois grandes aeroportos e ficou a rezar para que a primavera leve embora o mau tempo. Até na crise dos combustíveis é possível centralizar sem esforço. Qualquer correção a posteriori não apaga o centralismo da primeira decisão.

A trapalhada começou com uma greve ignorada até se sentirem os efeitos. A capacidade de antecipação do Executivo situou-se abaixo de zero, mas agora é necessário ultrapassar o problema, e, simultaneamente, perceber este fenómeno dos sindicatos com tão pouco tempo de vida que conseguem mobilizar os trabalhadores para paralisações suscetíveis de bloquear setores vitais do país. Foi assim, também, com as greves dos estivadores e dos enfermeiros. Estamos a falar de organizações criadas fora da esfera das centrais sindicais, o que talvez deva preocupar CGT e UGT.

A legitimidade da greve não está em causa, mas como motoristas dizem uma coisa e patrões outra, a propósito de (baixos) salários e (excesso) de horas de trabalho, o melhor mesmo é deixá-los debater, porque sem discussão não há convergência, esperando que os governantes também consigam conversar entre eles, substituindo o Conselho de Ministros por uma aula de Geografia, onde seja possível estudar o mapa de Portugal, de forma a perceberem que existe um país e não duas enormes áreas metropolitanas.

Editor-executivo