Opinião

Tolerância zero

A recuperação de movimentos saudosistas, com origem nas catacumbas da extrema-direita, verifica-se um pouco por toda a Europa e já nem é exclusivo do Velho Continente, tendo descido ao hemisfério sul, como se viu, recentemente, quando o Brasil, uma das maiores democracias do Mundo, elegeu Bolsonaro para presidente.

O descrédito provocado pelos escândalos em série a envolver atores principais do palco político e a evidente crise de valores de uma sociedade que quanto mais globalizada se torna, mais impessoal parece, são sinais que não deviam ser ignorados. Perante este quadro de desinteresse pelo legado histórico, que não só admite os inimigos da democracia como lhes confere a legitimidade de se assumirem como dirigentes de novas forças partidárias, podemos, realmente, esperar o pior se nos acomodarmos.

Entendo, por isso, que não devemos ser tolerantes com figurões como Mário Machado, cujo atos indicam ser um racista convicto, condenado por discriminação racial, e defensor das políticas de Salazar, que enfiaram Portugal numa teia de atraso e isolamento da qual ainda hoje procuramos recuperar. Na semana passada, a TVI resolveu promovê-lo a estrela do programa da manhã, uma escolha cheia de irresponsabilidade. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), mesmo inundada de queixas, também não viu problema nenhum, embora a Constituição proíba a existência de organizações que defendam a ideologia fascista.

Apesar deste desfecho, continuo a acreditar que a melhor forma de defender a democracia é, em casos muito específicos como este, não considerar o valor fundamental da tolerância. Porque, no limite, se os ideais extremistas de pessoas como Mário Machado vingarem, deixaremos de ser nós, jornalistas, a escolher os entrevistados. E nesse dia nem a ERC nos poderá valer.

*EDITOR-EXECUTIVO