Opinião

O crédito de Centeno

Acontece nas boas e nas más famílias, ninguém está imune a uma crise no casamento. Nem o governo de António Costa, cuja estabilidade sempre emergiu como marca de água, apesar da conjuntura e dos resultados eleitorais terem obrigado o Partido Socialista a batalhas duras.

Dos sinais ténues às evidências, restam poucas dúvidas de que a ligação entre o primeiro-ministro e Mário Centeno viveu dias sombrios. O "Ronaldo das Finanças", adversário da austeridade e mentor da recuperação económica, que até pelas cativações passou incólume, perdeu crédito por causa do Novo Banco, mas uma conversa a dois, na noite de ontem, deu-lhe o conforto necessário para continuar, não obstante a desarticulação com o gabinete do primeiro-ministro, no episódio da transferência recente de 850 milhões de euros para capitalizar aquela instituição bancária.

O chefe de Governo foi desautorizado pelo ministro das Finanças, desalinhando completamente os planos em que as duas figuras do Estado se movimentam. As reações foram duras. Nem o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, poupou nas palavras quando, ontem, defendeu a posição do primeiro-ministro neste processo, deixando o ministro sozinho.

Não foram dias fáceis para Mário Centeno. O capital recolhido ao longo de anos parecia esfumar-se, bem como a margem de manobra. No plano interno e europeu, de onde também chovem críticas, a propósito da influência residual do presidente do Eurogrupo no pacote financeiro aprovado para resgatar a economia dos países da zona Euro. Só que, já se sabe, em política nem tudo o que parece é. E de um encontro ao final do dia saiu a trégua na mini-crise. Confirmada uma certa inabilidade política, resta a Mário Centeno o crédito da competência técnica que o mantém no Governo. Não é pouco.

* Editor-executivo

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