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Um fio mental pré-histórico

Um fio mental pré-histórico

A discussão sobre os direitos da mulher, que há muito devia ter passado à história, continua na ordem do dia em quase todas áreas da sociedade. Salários mais baixos, presença residual nos círculos de decisão das organizações e sentenças condescendentes em casos de violência doméstica são assuntos recorrentes, resultado de práticas seculares machistas e inadmissíveis.

O desporto tem sido um campo de libertação para as mulheres, por vezes eternizado em batalhas emocionantes, como aquela que esteve na génese do circuito profissional de ténis feminino, liderada por Billie Jean, nos anos 1970. A tenista, primeira presidente da WTA, era uma feminista corajosa num tempo de mentes fechadas, mas à custa de muito sacrifício e enxovalhamento público conseguiu a maior vitória da carreira quando os prémios monetários pagos às jogadoras passaram a ser equiparados aos dos homens.

Cinco décadas depois, as mulheres continuam a precisar deste espírito de militância, porque as barreiras surgem como grãos de areia numa praia. O episódio recente com a seleção norueguesa de andebol feminino, impedida de jogar de calções, como os homens, confirma que os regulamentos continuam a ser escritos e aprovados por gente que pode muito bem ter estudado em manuais do Paleolítico. As andebolistas norueguesas - como outras mais silenciosas - não se sentem confortáveis a praticar desporto de biquíni. As regras, porém, impõem que o façam, para dar atratividade e captar patrocínios para o andebol de praia.

A decisão de acatarem os regulamentos, mantendo-se em prova no Campeonato Europeu, é aceitável - quem é/foi atleta em representação de um país percebe a importância de defender a bandeira -, mas teria sido mais bonito se o caso tivesse resultado num protesto multinacional de todas as jogadores presentes, porque se ninguém jogasse e o torneio fosse interrompido, talvez os patrocinadores que gostam de fios dentais fossem os primeiros a trocar as voltas aos fios mentais que estrangulam as meninges dos cérebros obtusos das cúpulas do andebol europeu.

*Chefe de redação

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