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Alentejanos cantam contra livro de Raposo

Alentejanos cantam contra livro de Raposo

Grupo Cantadores do Desassossego, de Beja, invadiu sessão de lançamento em protesto contra opiniões de "Alentejo prometido", o polémico livro de Henrique Raposo apresentado terça-feira.

Muito antes de ser lançado, o livro "Alentejo prometido", de Henrique Raposo, já alimentava revoltas nas redes sociais, pedidos de censura, insultos e ameaças ao autor. Já se esperava, portanto, que o lançamento da obra, na tarde de terça-feira, na Bertrand do Picoas Plaza, Lisboa, atraísse vozes de discórdia. De facto, essas vozes fizeram-se ouvir, mas em forma de... cante alentejano.

Assim que o escritor José Rentes de Carvalho acabou de falar sobre este "Alentejo prometido", cerca de dez pessoas do grupo Cantadores do Desassossego, de Beja, levantaram-se para entoar o cântico "Alentejo, terra sagrada". Depois, saíram da sala, por iniciativa própria, mas acompanhados por alguns agentes da PSP, que estavam por perto para evitar eventuais conflitos. Enquanto saíam, alguns dos membros gritaram ainda a palavra "palhaçada!".

"Ele não tem verdade naquilo que diz. Tivemos que manifestar a nossa oposição. Viemos transmitir que o alentejano é um povo culto, porque a cultura não se cinge só a quem tem livros", começa por explicar Francisco Torrão, porta-voz do grupo coral. "E mais", continuou, "a nossa postura foi corretíssima. Não interrompemos ninguém e acho que até animámos a sessão".

A apresentação prosseguiu com o jornalista Henrique Monteiro, do jornal "Expresso", que defendeu o autor, dizendo que "ele não ataca o Alentejo, a não ser na cabeça de alguns lunáticos". "Por muito que queiram queimar o livro, a mim soou-me a um hino de amor pelo Alentejo".

Opiniões polémicas sobre sexo e suicídio

No livro, editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (Alexandre Soares dos Santos estava presente na primeira fila), Henrique Raposo retrata o Alentejo como uma terra onde o suicídio e a violência sexual, entre outras opiniões polémicas, são vistos como coisa natural. Sobre o livro, o autor disse só que, "para se falar dele, é preciso lê-lo". E sobre as iradas reações nas redes sociais, que aumentaram após a sua presença no programa "Irritações", da SIC Radical, limitou-se a frisar que "as coisas têm importância relativa".

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Pedro Boucherie Mendes, apresentador do "Irritações", fez questão de estar na plateia. "Todas as contestações se justificam, desde que sejam feitas de forma civilizada, que foi o que aconteceu", admitiu, referindo-se ao cante alentejano. "Houve ataques e ameaças ao Henrique. Não sei se é verdade ou mentira aquilo que ele diz sobre o Alentejo, o que eu acho que é importante é que as pessoas possam escrever livros, e no limite escrever disparates, sem que as outras as ameacem", defendeu Boucherie.

Pedro Mexia, indicado como consultor do novo presidente Marcelo Rebelo de Sousa para a área cultural, acha "normal que algumas pessoas se sintam ofendidas", mas lamenta que "daí se parta para uma conversa de proibir e queimar livros". "Ameaçar um autor é um sintoma muito mau. O livro do Henrique é um livro a que não se pode responder porque é a história dele. É muito difícil discordar da biografia de alguém e dizer "eu não concordo com a tua vida"".

E o seu colega do "Governo Sombra" (TVI24), Ricardo Araújo Pereira, corrobora, com o seu habitual toque de humor: "Em geral, tudo o que o Henrique Raposo escreve eu acho abominável. Mas isso é muito diferente de eu achar que ele não deve escrever o que pensa. No mundo onde eu vivo, as coisas passam-se da seguinte forma: eu digo uma coisa que tu não gostas, tu dizes uma coisa que eu não gosto, e isso é legítimo. Mas se eu digo uma coisa de que tu não gostas e tu proíbes-me de falar, isso não é legítimo. Ou se me dás um tiro na nuca, se me ameaças a mim e à minha família, isso não é legítimo. E é isto".

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