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Inês Castel-Branco sabe que tem "mau feitio"

Inês Castel-Branco sabe que tem "mau feitio"

Em entrevista, a atriz de "Sol de Inverno" fala sobre a família e a sua profissão e revela que "lida bem com a morte"

Em "Sol de Inverno", na SIC, faz de Teresa, uma doente renal. Ter que lidar com este problema de saúde na ficção foi difícil para si?

Foi difícil aperceber-me dos contornos da doença na parte da pesquisa. Mas representá-la não, porque também queria passar ao público o que essas pessoas vivem e passam.

Para se preparar, contactou com doentes renais?

Sim. Primeiro com uma especialista na doença, fui a uma clínica de hemodiálise, assisti a alguns tratamentos, fiz imensas perguntas e falei com uma rapariga que tem a mesma história da Teresa. A ela, fiz-lhe uma entrevista de fundo. Tive ainda um workshop com o presidente da Associação Portuguesa de Insuficientes Renais.

Sentiu uma maior responsabilidade perante quem sofre da doença, por dar vida a uma personagem que a enfrenta?

O que senti, e tenho o feedback disso através das redes sociais, é que é uma doença que nunca foi muito falada na ficção e atinge um número enorme de pessoas. Mais do que o cancro. É um drama muito maior do que às vezes uma doença terminal, em que se sabe que só se tem um mês de vida. Aqui, não se sabe quando se vai ter um rim.

Mexeu consigo a doença?

Mexe sempre um bocadinho, até porque me obriga a relativizar a minha vida, a minha saúde e a dos que me rodeiam. É horrível pensar que um familiar ou mesmo nós podemos ter um problema destes.

Por falar em doença, disse numa entrevista que lida muito bem com a morte. Não é muito normal, numa pessoa tão jovem...

Lido muito bem com a morte, não sei porquê. Mas consigo olhar para o nosso corpo como uma máquina que para. Por isso é que somos tão sensíveis e frágeis. Essa fragilidade está sempre presente na minha cabeça, sabendo isso não me faz muita confusão. Faz-me, sim, deixar de as ver, de cheirar, de falar com elas, esquecer-me da voz delas. Mas isso tem a ver com amor.

Acredita que há vida para além desta? Acredita em Deus?

Não. Acredito na ciência e não há nenhuma prova de que existe vida para além da morte. No dia em que a houver, serei a primeira a dar o braço a torcer. Fui católica durante muito tempo, até ser adulta e começar a questionar coisas. Tenho imenso respeito por qualquer religião, em especial pela católica, porque fui educada com esses valores. Ia à missa todos os domingos. Acho até que é melhor acreditar em alguma coisa do que em nada. Mas, por outro lado, tenho esta mania de perguntar e interrogar-me... (risos)

Já teve que lidar com o problema de saúde da sua mãe [Luísa Castel-Branco]. Isso mudou a sua maneira de encarar a vida?

No ano que a minha mãe teve um AVC [acidente vascular cerebral], o meu pai teve um enfarte. Fez-me perceber que ficar sem pais não é muito bom, mas os dois ultrapassaram e nunca mais tiveram nada. Foi um susto que durou o tempo que durou, mas preocupo-me com alguns hábitos que a minha mãe tem, hábitos alimentares, o tabaco... Mas ainda não cheguei ao ponto de pensar na morte.

Voltando à personagem que interpreta na SIC, a Teresa é uma lutadora. Identifica-se com ela?

A Teresa tem muitas coisas minhas. Às vezes é boazinha de mais, na relação com os irmãos, com a mãe, é workhaolic... Mas eu divirto-me um bocadinho mais do que ela. Dá-me gozo fazer a Teresa, é um trabalho muito difícil em comparação com outros, porque sinto-me muito bem a fazer comédia, envolve uma concentração diferente.

É atriz há mais de uma década, mas diz que não nasceu com talento. Se não tem talento, como é que chegou até aqui?

Há 13 anos. Acho que não sou uma atriz especialmente iluminada, como a Maria João Luís ou a Rita Blanco, que nasceram para isto. Setenta e cinco por cento do que alcancei foi com trabalho, por chegar a horas, saber os textos, fazer bom ambiente no "plateau" e causar emoções nas pessoas à minha volta. Sou obcecada pelo rigor, sou muito rápida e isso é uma mais-valia. A escolha das personagens que fui fazendo ao longo da minha carreira também foi a certa. No início, fazia muito a menina bonitinha má e podia ficar por ali. Até ao dia em que disse: não quero fazer a próxima.

Não teve medo?

Tive um bocadinho, mas depois fiz comédia, Os Batanetes, e comecei a perceber que havia um mundo de hipóteses e que ficar a fazer sempre o mesmo não tem piada. E tive a sorte de começar a trabalhar antes do boom "Morangos com Açúcar", e isso foi bom para mim. Fiz duas séries mais tarde, e tenho muito orgulho.

Começou a trabalhar muito cedo. Ser atriz fazia parte dos seus planos? Quando é que decidiu que era isso que queria?

Queria ser advogada, por causa dos filmes de advogados. Nunca quis ser atriz, cantora, modelo. Ainda há pouco tempo, uma amiga minha perguntou-me se eu não me lembrava de em criança obrigar as minhas amigas a irem para minha casa ao almoço para me verem dançar (risos). Sempre fui mais extrovertida e singular nesse aspeto. Os meus testes psicotécnicos deram teatro, sempre fui uma aluna média. Quando acabei o 12.o ano,º não quis ir para a universidade, porque não havia nenhum curso que me agradasse. A minha mãe compreendeu e disse para eu parar um ano.

E ficou?

Não, três meses depois disse que não conseguia ficar parada. A minha mãe tinha-me inscrito numa agência de modelos, numa tentativa de melhorar a minha autoestima.

Não tinha autoestima?

A normal de pré-adolescente. Achava-me feia e gorda, tinha os dentes muito separados. Tinha dois irmãos mais velhos e achava que as pessoas gostavam de mim por eles serem famosos no liceu. Entretanto, surgiu a oportunidade de fazer uma audição de representação. Tinha 17 anos e fiquei. Senti-me bem a fazer aquilo e abriu-se um novo mundo para mim. Mas, antes, trabalhei num café, a fazer baguetes, a vender cafés, num bar de praia. Tive sempre trabalhos, para não pedir dinheiro à minha mãe.

Isso foi porque quis ser independente desde cedo?

Foi uma coisa que a minha mãe sempre me disse, que tinha de ser independente financeiramente. E resultou porque desde os 17 que o sou. Antes não era, porque vivia com ela, mas quando recebia chegava ao pé das minhas amigas do liceu, agarrava no envelope cheio de notas e íamos todas sair. Adoro dar coisas às pessoas à minha volta... Se ficar sem representar, não tenho medo nenhum de trabalhar. De servir às mesas, ao balcão.

Disse em entrevista que sempre quis viver muito depressa, sair de casa, namorar, viver junto. Disse também que se arrependeu. Referia-se a quê?

Esta obsessão de querer ser independente financeiramente fez com que eu quisesse logo sair de casa, pagar a renda. Arrependo-me disso, porque podia ter-me divertido mais e viver com a minha mãe, fazer tudo com mais tempo. Guardar dinheiro, viajar, estudar fora... fui precoce. Se eu soubesse que era isto a vida adulta... Isto é uma seca.

É parecida com a sua mãe?

Como mãe, dou por mim a repetir alguns comportamento. Como pessoa, não sou. Somos parecidas fisicamente, acho que sou mais sensata que ela, ela é mais conservadora e tem mais coração. Acho que ela fez um bom trabalho como mãe.

Percebeu-se no "Vale Tudo" da SIC que não gosta de perder nem a feijões. É mesmo assim? É uma pessoa orgulhosa?

Sempre fui assim, fiz muitos desportos em equipa e sempre fui muito competitiva e com mau feitio. Até se torna engraçado, às vezes.

Tem mau feitio?

Tenho e sei que tenho. Sou um bocado exigente, e quando me falham...

Que tipo de mãe é?

Sou um bocadinho dura com ele [o filho, Simão, de dois anos], para mim educar é desde os seis meses. Não o deixo fazer birras, obrigo-o a pedir desculpa, a dizer obrigado, se faz favor, pedir para levantar da mesa. Nas brincadeiras deixo que ele ande à vontade, que se suje, que vá brincar com animais para as poças da chuva, desde que não ponha em causa a saúde dele. E depois tenho tendência a levá-lo a ver arte ao fim de semana. Estimular a criatividade dele. Acho que sou uma boa mãe.