Caso Weinstein

Assédio sexual: Tudo sobre o escândalo que está a abalar Hollywood

Assédio sexual: Tudo sobre o escândalo que está a abalar Hollywood

As queixas contra Harvey Weinstein sucedem-se dia após dia. Atrizes, modelos e outras profissionais do universo do entretenimento têm acusado o produtor cinematográfico de abusos e violação sexuais e ameaças físicas e verbais, perpetrados ao longo das últimas três décadas.

Weinstein, de 65 anos, vê assim uma carreira recheada de sucessos como "Gangs de Nova Iorque" (2002), "Pulp Fiction" (1994) ou "A Paixão de Shakespeare" (1998), entre muitos outros, esbater-se em torno de um escândalo.

Foi uma investigação do jornal "The New York Times" e da revista "The New Yorker" feita ao longo de dez meses e publicada há precisamente uma semana, a cinco de outubro, que trouxe a público que o produtor Harvey Weinstein terá conseguido comprar o silêncio de oito mulheres, vítimas de abusos e violação sexuais e ameaças físicas e verbais, através de acordos extrajudiciais. O magnata de Hollywood terá pagado entre 80 e 150 mil dólares a cada uma delas. Mais: os colaboradores do fundador dos estúdios Miramax e The Weinstein Company tinham conhecimento dos casos, avançam as publicações, mas nunca se manifestaram.

"Entendo que a maneira como me comportei com colegas no passado causou muita dor, e peço sinceras desculpas por isso. Ainda que esteja a tentar fazer melhor, sei que tenho um longo caminho a percorrer", escreveu o próprio em comunicado, admitindo que há dez anos que recorre a terapia. Negou, no entanto, através da advogada Lisa Bloom, a maioria das acusações.

As atrizes implicadas

Sete dias depois das primeiras notícias são, pelo menos, 22 as mulheres que acusam o produtor de abusos ou ameaças físicas e verbais de caráter sexual. "As denúncias reunidas repetem um padrão: mulheres jovens, de 20 anos, eram convidadas para uma reunião de negócios com o poderoso senhor Weinstein. Ele exigia que o encontro fosse feito num lugar privado, geralmente o quarto de hotel dele. O empresário aparecia nu, pedia uma massagem à vítima ou que ela o visse a tomar banho", escreve o "The New York Times", baseando-se nos relatos de dezenas de testemunhos de antigos e atuais funcionários da empresa que facultaram detalhes sobre o comportamento do produtor.

Como disse Ashley Judd, as mulheres foram "falando sobre Harvey" entre elas. "Chegou a hora de termos essa conversa publicamente". E tiveram. Rose McGowan, Ambra Battilana, Lauren O'Connor, Emily Nestor, Asia Argento, Rosanna Arquette, Jessica Barth, Zoë Brock, Emma de Caunes, Cara Delevingne, Dawn Dunning, Louisette Geiss, Romola Garai, Liza Campbell, Judith Godrèche, Heather Graham, Angelina Jolie, Katherine Kendall, Gwyneth Paltrow, Kate Beckinsale, Tomi-Ann Roberts, Lauren Sivan, Mira Sorvino, Lea Seydoux e Lucia Stoller relataram os casos pessoais.

O relato de Asia Argento à revista "The New Yorker" vai ao encontro do que se terá passado com outras colegas. Weinstein ter-lhe-á pedido para "lhe fazer uma massagem" e terá depois praticado sexo oral, mesmo tendo a atriz insistido para que parasse. "Ele assustou-me muito. É um homem enorme e não parava. Foi um pesadelo. A questão de ser uma vítima é que eu senti-me responsável. Porque, se eu fosse uma mulher forte tinha-o pontapeado e fugia. Mas não fiz isso. E senti-me responsável".

Argento admitiu ter vendido o seu silêncio numa altura em que estava sem trabalho e com medo de ficar com a carreira destruída. Com estas denúncias, recordou "Scarlet Diva", filme que escreveu e realizou em 1999 com base, diz agora, no que aconteceu entre si e Weinstein.

"Tive uma experiência má com Harvey Weinstein na minha juventude e, como resultado, escolhi nunca mais trabalhar com ele", contou, por sua vez, Angelina Jolie, num e-mail direcionado ao "The New York Times". "Este comportamento contra mulheres é inaceitável em qualquer campo e em qualquer país", acrescentou.

Gwyneth Paltrow lembrou o dia em que Weinstein a convidou para uma reunião no seu quarto de hotel. A atriz tinha 22 anos e estava contratada para o filme "Emma" (1996). "Era uma criança, fiquei paralisada", confessou Paltrow.

A atriz terá contado este episódio ao então namorado, Brad Pitt, que, por sua vez, foi pedir satisfações ao empresário, avisando-o para nunca mais tocar em Paltrow. O intérprete já veio confirmar esta informação. "Estamos numa época em que as mulheres precisam de mandar uma mensagem clara de que isto acabou. Esta maneira de tratar as mulheres acaba agora", concluiu a atriz norte-americana.

Esta quinta-feira, a atriz britânica Sophie Dix revelou que ter sido abusada pelo produtor norte-americano lhe destruiu a carreira. O caso terá acontecido no Hotel Savoy, em Londres, onde terá ido sob o pretexto de ver alguma gravações, revela o jornal "The Guardian".

A gravação

Entre os documentos a que a revista "The New Yorker", teve acesso encontra-se uma gravação áudio, entretanto entregue às autoridades norte-americanas. Remonta, alegadamente, a 2015 e nela ouve-se a voz de Weinstein a admitir ter assediado Ambra Battilana Gutierrez. "Porque tocou no meu peito?", pergunta-lhe a modelo filipino-italiana. "Oh, por favor, estou habituado a fazer isso", respondeu.

A surpresa e a não surpresa

Este comportamento apanhou de surpresa muitos dos profissionais que têm trabalhado com Weinstein. Meryl Streep é uma delas. A atriz, que na cerimónia de entrega dos Globos de Ouro de 2012 se referiu ao produtor como um "Deus", já veio classificar o caso como "horrível". "As tristes notícias chocaram todos aqueles que apreciavam o seu trabalho. As mulheres corajosas que se fizeram ouvir são verdadeiras heroínas", disse.

A sua surpresa, e a de muitas outras artistas, como Viola Davis, Kate Winslet, Judi Dench e Jennifer Lawrence, contrasta certamente com os sentimentos de Seth Macfarlane. O comediante tinha conhecimento dos avanços de Harvey e foi isso que o levou, em 2013, a abordar o assunto em jeito de brincadeira. Aconteceu em 2013, durante a apresentação das nomeadas ao Óscar de Melhor Atriz. "Parabéns a vocês as cinco. Já não têm de fingir que se sentem atraídas pelo Harvey Weinstein".

As reações

A rainha Isabel II de Inglaterra atribuiu a Harvey Weinstein o título honorífico de Excelentíssima Ordem do Império Britânico, título esse que vários membros do Partido Trabalhista do Reino Unido pediram, em carta dirigida à primeira-ministra Theresa May, lhe seja retirado. Ainda em Inglaterra, a Academia Britânica de Cinema e Televisão (BAFTA) anunciou, esta quarta-feira, a suspensão da sua associação ao produtor de Hollywood.

"Embora tenha beneficiado do apoio de Weinstein pelo seu trabalho de caridade, a Academia considera o seu suposto comportamento completamente inaceitável e incompatível com os (seus) valores", diz a organizadora dos prémios BAFTA.

E enquanto a ex-candidata à presidência dos Estados Unidos Hillary Clinton se manifestou via Twitter ao afirmar que "o comportamento (de Weinstein) descrito por estas mulheres não pode ser tolerado", Michelle e Barack Obama optaram por lançar um comunicado no qual sublinharam que "qualquer homem que diminua as mulheres desta forma precisa de ser condenado e tido em conta, independentemente da riqueza e estatuto (dos acusados). (...) É necessário construir uma cultura (...) que torne tais comportamentos menos predominantes no futuro", conclui o casal.

No seio do indústria do entretenimento, a Amazon adiantou estar a rever os projetos que tem pensados com a The Weinstein Company. A série "The Romanoffs" e o drama protagonizado por Robert De Niro e Julianne Moore, ainda sem título definido, estão entre as produções ameaçadas.

Já a Apple foi mais radical e cancelou aquele que ia ser um dos próximos grandes projetos do seu serviço mundial: uma série sobre o cantor Elvis Presley, revelou o site Deadline.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, responsável pela cerimónia anual dos Óscares, agendou uma reunião de emergência para esta sábado, dia 14, onde irá "discutir as alegações contra Weinstein e quaisquer ações a serem tomadas". "A Academia considera repugnante, abominável e antiética a conduta descrita nas alegações contra Harvey Weinstein, perante os elevados padrões que a Academia e a comunidade criativa representam", disse a entidade em comunicado.

Weinstein perde a mulher e o emprego

O produtor, pai de cinco filhos, casou-se com Georgina Chapman há uma década, depois de três anos de namoro. Em declarações à revista "People", a fundadora da marca de luxo Marchesa confirmou que vai divorciar-se do empresário e classificou as suas ações como "não tendo desculpa".

Harvey não só perde a mulher, como o emprego. Três dias depois de o "The New York Times" ter publicado a sua investigação, os acionistas da The Weinstein Company decidiram-se pela demissão do fundador da produtora. "À luz das novas informações que surgiram nos últimos dias sobre a má conduta de Harvey Weinstein, os diretores da Weinstein Company - Robert Weinstein, Lance Maerov, Richard Koenigsberg e Tarak Ben Ammar - determinaram e informaram Harvey Weinstein que o seu contrato com a The Weinstein Company foi encerrado, com efeito imediato".

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