Gente

José Duarte: "Aprendi jazz a ensinar"

José Duarte: "Aprendi jazz a ensinar"

"Foram cinco anos certos de divulgação diária. Cinquenta minutos. Fim." Com a precisão rítmica que o caracteriza, José Duarte desceu o pano do programa radiofónico "Jazz com brancas" no último dia de 2010. O reconhecido crítico e divulgador do jazz em Portugal conta como começou a aventura.

Porque acabou o programa "jazz com brancas" na RTP Antena 2?
Acabou com um telefonema que me fez o meu amigo Rui Pêgo, director de programas de rádio da RTP, dizendo-me que o programa tinha acabado. A minha delicadeza levou-me a nem sequer perguntar-lhe porquê. Acabou, está acabado.

Mas vão manter-se os dois programas que faz para a Antena 1, não?
Acho que sim, o que é para mim uma honra por serem antigos e ainda agradarem ao público.  "cinco minutos de jazz" está no ar desde 1966, há 45 anos, e "a menina dança?" há 20 anos. Este foi premiado pelo jornal "Independente".

É reconhecido por divulgar e fazer crítica de jazz em Portugal. Como chegou ao jazz?
Fiz praticamente tudo na minha vida com o jazz e pelo jazz.

Começou por ser jornalista de imprensa.
Sim, no Diário de Lisboa. Escrevi lá durante anos e fui convidado para o "Suplemento Literário" por José Cardoso Pires. Trabalhei com Fernando Assis Pacheco, Urbano Tavares Rodrigues, com gente da esquerda activa. Gostava de reviver esses tempos em que aprendi muito com lutadores de esquerda deste país.

Levou o jazz também para a TAP, para onde foi trabalhar muito novo.
Sim. Na TAP os trabalhadores podem voar sem custos e assim aproveitei para ir a cidades onde os portugueses não iam buscar coisas que em Portugal eram proibidas: filmes, livros, discos, jazz. Consegui assim vantagem na aquisição de conhecimentos, neste país que vivia em ditadura.

Como despertou em si o gosto pelo jazz, lembra-se?
Lembro-me. Foi numa conferência na Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, em 1957, dada por Raul Calado, meu primeiro grande mestre. Fiquei espantado ao ver instrumentos usados em improvisações, fiquei impressionado com suas sonoridades diferentes para cada instrumentista. Isto, para uma cabeça vivendo sob um regime ditatorial, era um acontecimento. Nunca tinha ouvido música improvisada. Não conhecia o que eram um saxofone soprano nem uma trompete do feitio da de Dizzy Gillespie. Essa sessão fonográfica teve uma sessão de perguntas / respostas no final e fiz uma pergunta que me ficou na memória: "O Sr. Dr. disse que o bateria fulano de tal era melhor que o bateria sicrano de tal. Como é que se sabe quando um bateria é bom ou melhor ou pior que outro?" Explicou-me e fiquei mais culto. Quem sabe jazz é mais culto, é melhor do que quem não o é. No fim disse-nos: "Tenho a intenção de fundar um clube de Jazz em Portugal". E foi assim que surgiu o "Clube Universitário de Jazz" (CUJ), em 1958. Instalámo-nos na área da Praça da Alegria, tal como o "Hot Club de Portugal". Mas não éramos classistas. O CUJ teve dois mil sócios, alguns dos quais directores dos movimentos de independência das colónias, como MPLA, FRELIMO e PAIGC e eminentes jovens estudantes universitários. Jorge Sampaio foi um deles. Fazíamos exposições, conferências e colóquios com assuntos extra-jazz e que tinham a ver com política e liberdade e dançava-se jazz e outras músicas. O CUJ foi selado pela polícia ao fim de quase 3 anos de vida. "Ausência de estatutos" invocaram...

Sentiu de imediato vontade de divulgar jazz?
Desde que comecei. Fiz a minha primeira sessão fonográfica na Universidade, no ISCEF, em 1958, praticamente no mesmo ano em que conheci Raul Calado. Aprendi jazz a ensinar, a passar informações. É o meu feitio, não posso guardar o que é bom.

Seu gosto pelo jazz tem alguma relação com a música em geral, clássica e contemporânea?
Sou da música. Não sou com a música, nem para a música. Sou da música. Sou música. Tenho um bom ouvido rítmico.

Nunca tocou um instrumento?
Toquei percussão, mas como magoava muito os dedos, desisti. Não estava para aí voltado o meu destino...

Fazia intervenção política com o jazz. Como era isso?
Vivia-se num país em que o jazz era proibido. Ainda não havia guerra colonial, mas havia racismo que era preciso combater ao mesmo tempo que combatíamos o sistema político.

Mas em que é que o jazz era subversivo?
Ainda hoje é subversivo. Muita gente não gosta de jazz porque este tipo de música não pertence à cultura ocidental europeia. É uma fusão de culturas. Nós, os europeus, não a percebemos. Só a copiamos. O meu papel, achei eu, era combater o sistema ditatorial usando jazz.

O que distingue jazz da restante música?
A característica improvisação. Em todas a música se improvisa, mas jazz é feito à base da improvisação. Pode-se até não ter melodia para sobre ela improvisar, como no Free Jazz, estilo mais recente embora já com 53 anos. Pode-se seguir, não seguir harmonicamente a melodia, mas improvisar é criar as melodias que se quiser e pô-las cá para fora, soprando ou percutindo instrumentos.

É uma música sentida?
Claro, sempre. E não é lida. É a grande diferença entre Chopin e Ellington. Em jazz nunca se pode dizer: "vão lá que é um grande concerto" pois os músicos podem tocar mal.

A música jazz é o momento.
Sim. O disco trai um bocado esta passagem de informação, mas claro que tem vantagens: a memória. Se não, não conhecíamos génios como Armstrong, Miles, Coltrane, Monk.

Quando nasceu o jazz?
O jazz já existia antes de 1917, mas não era gravado. A primeira gravação foi nesse ano, na América, curiosamente feita por um grupo de brancos com grande influência do folclore negro norte-americano. Chamavam-se "Original Dixieland Jazz Band". É então que se pode dizer que o jazz nasceu.

Depois nasceu o Free Jazz.
Em 1958-59, com Ornette Coleman. Os músicos quando improvisam podem não se importar com a harmonia do tema nem saber como tocar seu instrumento! É livre. É free.

Como começou o "cinco minutos de jazz"?
Antes dele fiz outros programas na Rádio Renascença. Mas o êxito do indicativo abertura de "cinco" é devido à habilidade, ao meu sentido rítmico. Escolhi num tema de um LP agora CD gravado por um quinteto de músicos negros norte-americanos e um saxofonista alto Lou Donaldson. O tema chama-se "Lou"s Blues" - tem percussão no princípio e depois entram os sopros. E eu marquei o tempo de entrada "um, dois, um, dois, três, quatro, cinco minutos de jazz" e logo a seguir entram os sopros. Nunca ninguém tinha ouvido isto. Ainda hoje...

Foi um sucesso.
Sim, mas o programa foi muito mal recebido pelo público racista. No meu acervo, que entreguei em 2002 à  Universidade de Aveiro, lá estão os postais e cartas sem nome de quem as escreveu e enviou pelo correio para a Rádio Renascença.

São mesmo cinco minutos?
Os programas raramente têm cinco minutos. Às vezes têm mais, mas é mais comum terem sete, oito. O programa, que é diário, é o mais importante e antigo espaço de divulgação de jazz em Portugal, co-responsável ao fim e ao cabo pelo mini-mundo jazz hoje em Portugal.

Entretanto conheceu Louis Armstrong.
Sim, quando ele esteve em Portugal em março de 1961. Convidou-me até para ir viver com ele e com sua mulher, mas não fui porque era um miúdo, filho único, era um puto acabado de entrar para a TAP. Nunca tinha ido aos Estados Unidos e tive medo.

Outro seu programa de sucesso é "A menina dança?". Como surgiu?
Fui convidado por Jaime Fernandes. Trabalhávamos na Rádio Comercial. Tinha eu escrito um texto para "O Jornal" sobre Irving Berlin, grande compositor norte-americano". Jaime Fernandes gostou e ficou admirado de meu saber sobre aquela música. Convidou-me para fazer um programa sobre "standards". Inventei então "a menina dança?" que é um programa semanal dedicado a grandes nomes vocais da música norte-americana e a grandes compositores do "American Song Book".

Surge mais tarde o "jazz com brancas", na antena 2, para um público ouvinte de música clássica.
Criei o programa e o título. Mais tarde, soube que na Noruega, quando a rádio quer passar uma informação importante faz uma branca, ou seja, cala-se.

Branca é?
Um espaço vazio, silêncio. Branca é um termo radiofónico. É o espaço entre música e palavra ou palavra e música ou palavra e palavra. Para evitar a branca, tem que se saber respirar o tempo, o silêncio.

Divulga o jazz nacional?
Realizei e apresentei recentemente muitos, mais de cinquenta, "cinco minutos" com jazz português. Jovens artistas jazz portugueses precisam ser conhecidos, depois apreciados.

Pelo meio fez um programa de humor: o "pão com manteiga".
Que nasceu de uma ideia conjunta de Mário Zambujal, Carlos Cruz e minha. Numa reunião em casa do Carlos Cruz estivemos horas à procura do nome até que eu disse "Café com Leite", porque o programa era de manhã. Mas não gostámos. E surgiu-me depois "Pão com Manteiga". Foi um marco na história da Rádio com humor, entre 1980 e 83. Chegámos a fazer rádio a cores ou rádio de microfone aberto para todos para tudo o que se fazia e dizia na cabine. Publicámos livros e uma revista mensal. A aceitação foi gigantesca.

Actualmente parte da sua ligação à música são as suas filhas. Estão na música jazz?
Total ligação à vida. Não estão só no jazz. Uma, Rita, dá lições de piano. Adriana toca flauta, guitarra, piano, compõe, escreve as letras e canta. Tudo isto gravado em dois CDs. Estudou três anos no Berklee College of Music em Boston, EUA.
São a prova de que sei Música.