Entrevista

Patrícia Vasconcelos: "Perdi a conta aos castings"

Patrícia Vasconcelos: "Perdi a conta aos castings"

Diretora encontra rostos para personagens, dirige escola de atores, canta jazz e volta, na quinta-feira, dia 8 deste mês, à RTP com o programa "Sei quem ele é".

Aos 53 anos, Patrícia Vasconcelos já dirigiu tantos castings, que lhes perdeu a conta. "Sei que em 2001 tinha 600 cassetes só com anúncios publicitários. Agora, não sei. O facto de ser a única "casting director" fez com que chegasse a trabalhar, só para um produto, com castings que duravam cinco horas. Hoje, tenho um arquivo monstro. Entre profissionais e não profissionais, serão uns 30 mil nomes. Por aí".

Poucos são os atores que não dirigiu, desde 1989, e que encontraram personagens no cinema e na televisão através da sua palavra. Alguns serão agora seus convidados na terceira temporada de "Sei quem ele é", com estreia marcada, na RTP1, para a próxima quinta-feira, à 23.40 horas.

José Raposo será o primeiro. "Quando esteve comigo, já tinha feito muita coisa. Castings é que não". Ao contrário das temporadas anteriores, esta terá convidados surpresa. Manuel Marques também está na lista de entrevistados ("Contará como nos conhecemos"), assim como Sara Norte ("Vamos vê-la aos oito anos a dizer que queria ser atriz") e a atriz Anabela Moreira ("Será um momento único em televisão"). A ideia é ter conversas com remissões ao passado - aos castings- com um novo cenário e um ambiente informal.

Escola para as câmaras

Para além de "ganhar o pão" como "rainha dos castings", Patrícia criou, em parceria com a amiga e atriz Elsa Valentim, a Act, uma escola de atores com três anos de formação, aceitando 20 alunos. Sofia Grilo, Inês Castelo Branco, Patrícia Tavares, Ana Brito e Cunha, Pêpê Rapazote foram os nomes que saíram de um "workshop" que serviu de tubo de ensaio para a escola. No primeiro ano, Anabela Moreira, Nuno Pardal, Duarte Gomes, Graciano Dias, André Nunes, Patrícia André e Ruben Gomes foram os atores formados.

No cinema, tem sido Patrícia a escolher, de guião na mão, quem é o melhor para personagens de obras de vários realizadores. Damos exemplos de "Jaime", "Imortais", "Call girl" , "A bela e o paparazzo" e "Parque Mayer", todos eles filmes dirigidos pelo pai de Patrícia, António-Pedro Vasconcelos. Mas há mais. "É uma grande responsabilidade. Mas sinto-me muito acarinhada. E sou muito maternalista. Quando Cacá Diegues apresentou o seu filme em Cannes, não resisti. Fiz uma viagem gigante, mas fui".

Patrícia também gosta de cantar. Jazz - ou uma vertente de jazz. Tem trabalho gravado e dá espetáculos, viaja por eles. Como viajam os atores que consegue pôr no Mundo, através do programa "Passaporte", que criou. "Os atores portugueses estão na moda. Viu-se com Albano Jerónimo e Ivo Alexandre na série "Vikings", vê-se com Joana Ribeiro, com Alba Batista, com José Fidalgo. Eu digo: 'existem bons atores portugueses'. E temos".

Inspirada em francesa

Patrícia confessa que não sabe estar parada. Que gosta de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Começou cedo a conhecer o Mundo. Tinha seis meses quando os pais - o realizador António-Pedro Vasconcelos e Maria Helena Marques - se divorciaram. A mãe voltou a casar com Álvaro Guerra, escritor e diplomata. Viveu em Belgrado e no Zaire. Aos 19 foi hospedeira de terra da Lufthansa e casou com um belga. Voltou para Portugal. Pouco tempo depois separou-se. Aos 23, foi trabalhar, depois de ter sido chofer, no guarda-roupa do filme "Aqui d"El-Rei", realizado pelo pai. Voltou a apaixonar-se e foi mãe pela primeira vez (tem dois filhos). Na rodagem, apercebe-se que algumas falhas pelo facto de não haver, na altura, a profissão "casting". Quando foi para Paris, teimou que iria descobrir como se faziam castings. Pesquisou e encontrou um nome recorrente: Margot Capelier. "Quis conhecê-la". E quem lhe abriu a porta foi "uma velhinha descontraída", mas que era a "diva do casting". "Recebeu-me com os pés descalços e deu-me a lição da minha vida". Disse-lhe que teria de conhecer os atores todos para exercer a profissão. Continua a aprender. Com teatro, sobretudo.