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Camarate: Amaro da Costa teria dificuldades em obter informações sobre venda de armas

Camarate: Amaro da Costa teria dificuldades em obter informações sobre venda de armas

O ex-governante Castro Caldas disse, esta terça-feira, na comissão de inquérito à tragédia de Camarate que o antigo ministro da Defesa Amaro da Costa lhe referiu pessoalmente a dificuldade de obter "informação fidedigna" sobre a venda de armas.

"A preocupação que Amaro da Costa me transmitiu era sobre a dificuldade de obter informação fidedigna, sobre os mecanismos, sobre as sociedades que existiam, sobre a capacidade de tutela que o ministério da Defesa tinha sobre a indústria militar que funcionava nessa altura", disse.

Júlio Castro Caldas, ouvido, esta terça-feira, na comissão parlamentar de inquérito à tragédia de Camarate, referiu que a conversa com Amaro da Costa decorreu no Parlamento, "num período de votação orçamental, algures em outubro e novembro", pouco tempo antes da queda do avião que vitimou o então ministro da Defesa Amaro da Costa, e o primeiro-ministro, Sá Carneiro, a 4 de dezembro de 1980.

O ex-governante sublinhou que, mais tarde, quando tutelou a pasta da Defesa, percebeu o quanto teria sido difícil, vinte anos antes, "tentar interferir em questões que estavam inclusivamente a coberto de regras de segredo de Estado e militar" e em que havia uma grande garantia de "reserva".

"O Amaro da Costa teria tido essa conversa comigo porque não era fácil. O poder militar que existia na altura, as ligações que existiam às empresas privadas que operavam no setor da importação e exportação de armamento, estabelecer o exercício de uma tutela, esforço que ele fez e que me asseverou que estava a fazer", disse.

Questionado sobre se tinha conhecimento da venda de armas para a guerra Irão-Iraque, tendo em conta que existia um embargo internacional, Castro Caldas disse que "mais tarde" veio a ter conhecimento de que "houve exportações para o teatro de guerra Irão/Iraque, designadamente da Extra, fábrica de explosivos da Trafaria, e dos invólucros de artilharia que eram fabricados na altura pela Cometna".

"Essa exportação Portugal fê-la com grande lucro", disse, acrescentando que não teve acesso a documentação que permita afirmar que existiu ou não um despacho autorizando essas exportações.

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"A minha convicção, sem factos, é que o material foi exportado quer para o Iraque, quer para o Irão, através daquele que era o veículo tradicional de exportação que era desembarcar a mercadoria no Líbano e o acesso ser feito a partir daí aos beligerantes", disse.

Essa exportação, disse acreditar, era lícita, uma vez que "não havia embargo" à exportação dos "explosivos separados dos invólucros".

Castro Caldas, que tutelou a pasta da Defesa em 1999 e foi relator da 1ª comissão de inquérito criada no Parlamento para apurar as causas da queda do avião, respondeu a algumas das perguntas dos deputados afirmando que pode avançar com "conjeturas mas não com factos".

"Porquê conjeturas e não factos? Porque se a minha convicção é a de que existiu um atentado, que esse atentado foi perpetrado por profissionais que quando o fazem, fazem bem feito, se o propósito era suspender a intervenção pública do ministro da Defesa que pudesse perturbar uma operação que estava em curso e se eu tivesse tido conhecimento de factos, com certeza que também não teria sobrevivido", disse.

O ex-governante frisou ainda o ambiente político da época, referindo que quando Amaro da Costa assumiu a pasta da Defesa havia uma "indefinição técnica" sobre o que competia ao ministério e o que competia ainda ao Conselho da Revolução [extinto em 1982].

A 10ª comissão de inquérito ao caso Camarate visa averiguar as "causas e circunstâncias em que, no dia 4 de dezembro de 1980, ocorreu a morte do primeiro-ministro, Francisco Sá Carneiro, do ministro da Defesa Nacional, Adelino Amaro da Costa, e dos seus acompanhantes".

A anterior comissão de inquérito avançou para duas linhas de investigação que deverão ser agora retomadas: o comércio e exportação de material militar e a extinção do fundo de Defesa Militar do Ultramar.

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