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Diplomata classifica Salazar como "hábil"

Diplomata classifica Salazar como "hábil"

António de Oliveira Salazar à frente dos Negócios Estrangeiros "foi hábil, cauto e prudente", disse o diplomata Bernardo Futscher Pereira, autor da obra "A diplomacia de Salazar (1932-1949)", que é apresentada esta quinta-feira, em Lisboa.

Em declarações à Lusa, Bernardo Futscher Pereira, atual embaixador de Portugal em Dublin, afirmou que o antigo chefe de Governo, que também assumiu durante cerca de 20 anos a chefia da diplomacia portuguesa, "tinha ideias claras e firmes, mas nem sempre acertadas".

"Certamente era matreiro, mas não desonesto na forma como agia, pois havia uma diretriz: a distinção entre as suas preferências ideológicas e os condicionamentos estratégicos do país", muito ligados à aliança com o Reino Unido.

A obra, com a chancela das Publicações D. Quixote, destina ao leitor comum, disse o diplomata que a refere como uma síntese daquele período - 1932/1949 -, que foi "crucial" para o regime, e "também para a imagem de Salazar lá fora, e ele tinha essa percepção".

A obra é apresentada pelo autor como "uma visão de conjunto da diplomacia do Estado Novo", entre a data em que Oliveira Salazar assumiu a chefia do Governo até à adesão de Portugal à Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO).

Se Bernardo Futscher Pereira reconhece que o livro é "uma obra de síntese rigorosa", que reúne informação de numerosos estudos académicos e obras publicadas, refere também o seu contributo, a sua "investigação original", nomeadamente através do acesso ao arquivo da família de Teixeira Sampaio.

Essa investigação, como afirmou à Lusa, permitiu-lhe "esclarecer melhor, em termos cronológicos, o período inicial do consulado de Salazar, em que está a consolidar o seu poder, e delinear o caráter de determinadas personagens, nomeadamente dos diplomatas Teixeira de Sampaio e Armindo Monteiro, e esclarecer os processo de decisão, como essas pessoas se posicionavam em relação a Salazar e como é que as decisões eram tomadas".

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Questionado pela Lusa sobre o modo como se equacionou a questão dos judeus, o diplomata aconselhou prudência, "pois não foi muito estudada até ao momento", mas salientou que "não havia na altura [em Portugal], nem o Salazar tinha, um sentimento de anti-semitismo".

Flutscher Pereira disse mesmo que, "em Portugal, não havia uma distinção entre judeus e outras pessoas que era perseguidas e estavam numa situação de debilidade".

A obra de 291 páginas é dividida em seis partes. A primeira, de julho de 1932 à eclosão da guerra civil em Espanha em 1936, seguindo-se o período deste conflito, que só terminou em 1939.

A terceira parte vai de 1939, o começo da II Grande Guerra, à invasão da União Soviética pelas forças alemãs, em 1941, seguindo-se a quarta, desta altura até 1943 quando Portugal estabelece com os Aliados - Londres, então, em particular - a cedência de facilidades nos Açores.

A quinta parte vai desde outubro de 1943 até ao final da guerra, em 1945, e a preocupação na recuperação para o então "Império Colonial Português", do território de Timor que, em 1942, tinha sido invadido pelos japoneses.

A última parte da obra descreve o período de 1945 a 1949, quando Portugal integra a NATO, como membro fundador, e "se desenha uma nova ordem mundial".

Esta é a primeira obra de Bernardo Futscher Pereira, 53 anos, atual embaixador de Portugal na República da Irlanda e que foi assessor para as relações internacionais do ex-Presidente da República, Jorge Sampaio.

Antigo jornalista, o autor é mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade de Columbia, em Nova Iorque, e tem vários artigos publicados em revistas da especialidade.

"A Diplomacia de Salazar" é apresentada quinta-feira, às 18:30, no hotel Pestana Palace, em Lisboa, pelo historiador Pedro Aires Oliveira e pelo embaixador Marcello Duarte Mathias.

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