presidenciais 2015

"Financiamento da campanha preocupa-me", diz Henrique Neto

"Financiamento da campanha preocupa-me", diz Henrique Neto

Henrique Neto, o primeiro candidato às Presidenciais, admite que corre para Belém após o apelo popular e justifica a antecipação da candidatura, a ser apresentada, esta quarta-feira, com a necessidade de se conhecer as suas propostas.

A um mês de completar 79 anos, o antigo comunista, a militar no PS desde 1991, garante que o financiamento da campanha é neste momento a sua maior dor de cabeça.

Como empresário de moldes de plástico, considera que encaixa no molde que Cavaco já estabeleceu para um ocupante de Belém?

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(Risos) Não, não encaixo, porque é um tipo de Presidência em que não me revejo. Principalmente, porque, nestes 10 anos, o país empobreceu, regrediu, envidou-se.

Isso é culpa do Presidente?

Também é. Agora está na moda não se ser culpado de nada. O que aconteceu em muitas áreas da governação pedia uma intervenção do Presidente da República.

Há 20 anos, acusava Cavaco de ser "profundamente incompetente". Continua a pensar o mesmo?

Hoje, não diria tanto. Em Belém, cumpriu os mínimos. Há uma função do Presidente da República, muito respeitável, que é manter-se como um magistrado de último recurso. O que quer dizer que, se um primeiro-ministro não fizer nada durante toda a presidência, tem pelo menos essa qualidade. Em casos de grandes dramas, grandes convulsões, tem o poder de decidir. Acho que um Presidente da República não se deve limitar a isso. Nomeadamente, se em sua consciência, verificar que o país não está a ir pelo caminho certo.

Disse, há poucas semanas, que uma candidatura estava fora de questão por razões financeiras. Colmatou essa necessidade?

Receio que não! É um obstáculo enorme para uma candidatura que não seja partidária ou apoiada por um partido. Mas temos uma estratégia para tentar colmatar isso. O financiamento da campanha preocupa-me e esse é, neste momento, no plano da organização da campanha, o que exige maior atenção.

O financiamento pode partir de que base?

Criámos uma associação. Tenho duas preocupações sobre o financiamento. Uma delas, é que não represente que me tenha de comprometer com alguém no futuro. A segunda, é que seja transparente. Portanto, criámos uma associação e legalizámo-la, para poder receber os fundos que forem feitos. Qualquer cidadão pode participar nessa associação, pagando uma quota. Passamos um recibo. Ora, mas se isso é o suficiente...

Como empresário, a título particular, vê-se como principal financiador de uma pré-campanha que se avizinha longa?

Principal gostaria de não ser, porque os meus recursos não são tão amplos como as pessoas às vezes pensam. E, tenho uma família relativamente grande. Não quero ir embora deste mundo, deixando, seja quem for, em dificuldades. Mas, claro que contribuirei. Espero contribuir menos que alguns.

Tem em mente de qual será o montante necessário para fazer face às máquinas de propaganda alimentadas pelos partidos, que irão surgir associados a este ou àquele candidato?

Estamos a fazer um orçamento. Podemos enveredar para uma campanha mais pobrezinha ou por uma mais abonada. Depende da reação das pessoas que queiram contribuir.

Não é um pouco cedo demais, quando há ainda umas eleições legislativas pelo meio?

É uma pergunta legítima e correta. Mas, essa, é precisamente a razão porque me candidato tão cedo. Aquilo que vou tentar defender nesta campanha são convicções, que já tenho há muitos anos. Naturalmente adaptadas a uma realidade que é atual, com o debate interno com os apoiantes. Mas, um dos objetivos desta campanha, é introduzir na agenda política alguns temas e algumas soluções para os grandes problemas nacionais, problemas de Estado. Não me candidato ao Governo, candidato-me à Presidência da República. Os pontos que vou introduzir são problemas de Estado. O facto de me apresentar relativamente cedo, permite-me ter tempo para fazer isso.

Esta antecipação é para colmatar alguma falta de visibilidade na sociedade?

Diria que sim. Ainda que nos últimos dias as notícias desmintam isso. As pessoas na rua já me paravam para desafiarem a fazer qualquer coisa. Mas tenho intenção de, periodicamente, de duas em duas ou três semanas, publicar e dar a conhecer aquilo que chamo "posições do candidato". Não será um livro, porque já tenho um escrito. E também não é um programa com 200 páginas. Antes uma página com problemas: a dívida pública, a logística, o crescimento económico. Com perspetivas, que diria, inovadoras, mas que de nada têm de inovadoras noutros países. Posso fazer isso num período prolongado, esperando não ser queimado em lume brando, como algumas pessoas receiam, com uma candidatura muito longa.

Para um crítico interno no PS e dissidente comunista, onde quer captar votos?

Aos portugueses. Tenho até hoje um grande respeito pelas pessoas do PCP, como do PS. Tenho muitos amigos no PSD e até no CDS, devo dizer.

Apesar dessas amizades com a Direita, sente-se confortável em ir buscar votos nessa área?

Não me sinto confortável de todo. Mas tenho pessoas que são pessoas sérias, que lutam muito pelo país e isso é essencial. Às vezes, falo com pessoas no PCP e isso significa falar com o partido. Se eu o fizer com pessoas do PS ou do PSD, estou a falar apenas com aquelas pessoas que ali estão. O partido é outra coisa.

E falou com alguém do PS sobre a sua candidatura?

Na equipa, com que estamos a trabalhar, estão pessoas do PS. Tenho a impressão que a maioria é do PS.

E com Jorge Sampaio, que o convidou para militar no PS?

Não.

Não achou que poderia ser uma opinião relevante?

(Silêncio) Levo a sério a ideia de um candidato a Presidente da República apresentar-se ao eleitorado de forma independente, de acordo com a sua consciência. Sou amigo do dr. Jorge Sampaio há, talvez, uns 60 anos. Costumávamo-nos encontrar no Hotel Flórida, nos longos tempos dos grupos católicos. Dr. Jorge Sampaio não era católico mas estava bem integrado. Foi sempre muito amável comigo. Deu-me duas condecorações. Tenho todas as razões para ser grato. Mas, não achei......

Quanto tempo andou a maturar esta ideia?

Pouco. Os amigos pediram-me para me sentar com eles, aí, num café de Lisboa e disseram-me: você tem de se candidatar à Presidência da República. Achei piada e questionei o pedido. E deram-me um conjunto de argumentos.

Que argumentos?

Deram muitos. Mas, aquele que pesou foi dizerem-me: você é, talvez, das poucas pessoas em Portugal que, há 20 anos, disse quase tudo o que o país fez de mal e é das poucas que apresentou propostas de como se pode fazer de bem. Que havia então um capital, que havia sido reforçado desde que me bati no tempo do engenheiro (António) Guterres, contra a fase final do seu Governo.

Esta corrida é um ajuste de contas com António Guterres?

Não, não. Nunca conheci ninguém como o engenheiro Guterres para organizar mentalmente um texto, uma posição política, ou mesmo fazer uma intervenção pública. Uma vez fui com ele a Coimbra de carro e ia-me perguntando pelo caminho a minha opinião sobre várias coisas. Depois, em Coimbra, fez uma intervenção de uma hora, sem um papel, sem uma nota, sem coisa nenhuma. E tudo aquilo que lhe tinha dito, e mais outras 300 coisas, saiu perfeitamente organizado e sistematizado, sem um erro. Nunca conheci ninguém assim. Por isso, é uma pessoa cheia de qualidades.

Chegou a dizer, mais que uma vez, que o regresso de Guterres seria mau para o país?

Disse. Disse porque estive na Comissão Política do PS e, lá, bati-me bastante contra ele, criticando-o em algumas coisas que, depois, vieram a mostrar-se verdadeiras e que conduziram ao famoso pântano.

Mas seria um bom candidato a Presidente da República?

É um bom candidato a Presidente da República, com uma pequena nota: não vai mudar o que é preciso mudar. Mas o país e a Democracia ficarão, no essencial, bem entregues.

Fá-lo-ia desistir desta campanha?

Não. Tenho a certeza que não conseguiria fazer as profundas mudanças que o país precisa, porque não tem distanciamento suficiente de pessoas que o rodearam no passado, para poder atuar sem qualquer compromisso partidário.

Acha que o Presidente da República fez bem remeter para o campo do combate político a polémica sobre a carreira contributiva de Passos Coelho?

Acho que o Presidente da República não deve ser comentador político, deve fazer intervenções públicas mas sobre os grandes temas nacionais. Por exemplo, a construção de um porto de águas profundas no Barreiro. Seria de esperar que o Presidente da República questionasse, nos encontros semanais com o primeiro-ministro, algo sobre este assunto e que obtivesse respostas que o país não tem, sobre a necessidade daquela obra.

Mas o terminal de contentores do Barreiro não é a mesma coisa que a carreira contributiva de um primeiro-ministro.

Na vida, como na política, somos nós e as nossas circunstâncias. No momento atual, o país está confrontado com problemas de enorme dimensão. A PT, a queda do BES ou, até, a ilha ferroviária a que fomos conduzidos. Perante estas circunstâncias, não valorizaria muito a questão das dívidas do primeiro-ministro. Os portugueses foram informados do que aconteceu. Os portugueses fizeram o seu juízo. Não vejo vantagem em continuar a dar atenção nos jornais a essa polémica. E o senhor Presidente da República também não deve de achar que a dá. Não desvalorizo esse episódio, mas não devemos inverter a pirâmide das prioridades.

Há algum Presidente da República em que se reveja?

Revejo-me na Presidência do general Ramalho Eanes.

Porquê?

Devido a uma atitude fortemente ética, muito pensada para o país. Serei sempre diferente dele, principalmente da linguagem decifrada que usava e ainda usa. Acho que tem de se falar para os portugueses com uma linguagem que eles percebam, que apesar da solenidade não pode passar pela obscuridade do discurso.

Pensei que me fosse dizer Jorge Sampaio.

Revejo-me em muito. Tomou posições corajosas, como a demissão de um Governo. Foi sempre um exemplo de retidão, rigor, educação. Claro que gostaria que tivesse, perante as desgraçadas que ocorreram no país, de uma maneira clara colocado aos portugueses os dilemas em que íamos enveredar. Porque foi nesse período que começou o endividamento excessivo e o excesso de ligação do poder político ao poder económico. Os sinais não eram tão fortes como hoje, mas já eram evidentes. Um dos piores foi as compras militares, que se iniciaram nessa altura.

Que defende para o país?

Vamos apresentar posições políticas sobre grandes questões nacionais, com um espaço muito curto e conciso. Apresentar ao país uma visão estratégica curta, talvez duas paginas daquilo que penso para o país nos próximos 10 anos. Desafiarei os partidos a pronunciarem-se antes das eleições legislativas. Acho desejável que, após as legislativas, haja alguma forma de cooperação institucional entre os partidos políticos portugueses - pode ser uma coligação, pode ser um acordo de incidência parlamentar, pode ser aquilo que quiserem. E considero que é mais fácil obter isto existindo um documento feito por uma entidade independente como o candidato a Presidente da República, sobre o qual se podem pronunciar.

Isso soa ao apelo constante do atual Presidente da República. Considera-o um bom moderador para tal necessidade?

Não, ele não sabe definir as regras de mediação. Quando foi o caso do incidente do PSD e do CDS, não foi mediador. Nem bom, nem mau. Não foi. Pelo menos, publicamente.

Ter o seu nome envolvido na Operação Furacão, em 2009, por causa de uma dívida de 200 mil euros, pode manchar esta corrida?

Ainda bem que tocou nesse assunto. É o primeiro que o faz e ainda bem, para quem vier a seguir. Mas não havia dívida.

Não houve uma dívida ao fisco de 200 mil euros de uma empresa da qual era sócio?

O fisco retirou a queixa mas não retirou o facto, que me pesa na consciência e que me levou a reformar. Devagarinho, ao longo de dois anos, mas levou.

Mas explique-nos então o que aconteceu.

Isso aconteceu numa empresa onde tinha apenas 11% pessoalmente e a empresa que dirigia outros 11%. Em conjunto: 22%. O outro sócio, que era alemão - quando eu achava que todos os alemães eram exemplo acabado da correção -, sem eu saber e sem a minha intervenção, através de uma offshore e umas quantas assinaturas conseguiu retirar dinheiro dessa empresa com uma justificação muito parecida com a do BES. A empresa alemã estava em dificuldades e acabou por falir. Um dia o dr. Rosário Teixeira, que agora é famoso e na altura era menos, entrou-me pelo gabinete adentro, dizendo que não era nada contra a empresa que dirigia mas na associada. Viram os computadores e perceberam que não tínhamos nada. E na outra empresa encontraram o que tinham de encontrar. Claro que, no dia seguinte, a foto que apareceu no jornal era a minha. Isso afetou-me bastante, até porque tinha recebido 17 mil euros que, disseram-me depois, era dessa conta, sendo enganado. Senti-me culpado. E, ainda hoje, estou para perceber porque é que fui enganado. E sabe porquê? Quando se diz algo sobre a nossa família, a nossa empresa ou o nosso país, não se pode invocar que de nada se sabia. E disse ao procurador Rosário Teixeira: não sabia de nada, mas sou tão culpado como se soubesse. Ele colocou lá isso e acho que ficou com grande respeito por mim. E, eu, fiquei com grande respeito por ele.

Questionário rápido sobre presidenciáveis:

Santana Lopes: (risos) O nosso passado persegue-nos até ao fim da vida.

Manuela Ferreira Leite: Uma pessoa que admiro

Carvalho da Silva: Uma referência do mundo do trabalho português

António da Nóvoa: Conheço mal

Maria de Belém: Uma pessoa estimável

António Vitorino: (risos) Um "bon vivant"

António Guterres: Um homem generoso

Marcelo Rebelo de Sousa: Um desafio permanente

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