Política

Cavaco diz que Europa padece de falta de solidariedade

Cavaco diz que Europa padece de falta de solidariedade

O Presidente da República admitiu hoje que a influência excessiva das agências de 'rating' reflete "cobardia política" dos líderes europeus e criticou a falta de solidariedade na Europa, que "padece de alguma má moeda".

Numa entrevista concedida à TSF por ocasião do 24º aniversário daquela rádio, o chefe de Estado voltou a criticar o excessivo protagonismo das agências de 'rating', manifestando-se surpreendido pela forma como 27 chefes de estado e de Governo "se deixam condicionar e até chantagear por três agências de 'rating' norte-americanas".

Questionado se entende que há "jogo político" na atuação das agências de 'rating', Cavaco Silva recordou uma frase de uma antiga ministra espanhola de que a influência política dessas agências "reflete cobardia política dos líderes europeus".

Acompanhando a crítica de "cobardia política", o Presidente da República defendeu a criação de regulamentação que garanta "transparência" na atuação das agências de 'rating' e resolva "eventuais conflitos de interesses", considerando que é preciso saber quem são os sócios dessas agências e se têm ou não interesse no desgaste da zona Euro.

Além disso, acrescentou, é necessário que os países "não valorizem em tão grande dimensão a opinião das agências de 'rating'", notando que "três agências de 'rating' dominam 85 por cento do mercado".

Na parte da entrevista dedicada a uma "reflexão sobre a Europa", o Presidente da República reiterou igualmente as críticas à falta de solidariedade europeia, recuperando a expressão "má moeda", que utilizou há alguns anos num artigo de opinião.

"[A Europa] padece de alguma má moeda que se situa na falta de solidariedade que vem de alguns sítios", referiu o chefe de Estado, reconhecendo que hoje em dia "a solidariedade é mais fraca" na Europa.

Contudo, continuou, atualmente a Europa já está num "tempo de viragem", "porque se reconhece que é preciso mais Europa, que é preciso agenda crescimento económico e combate desemprego, enfrentar forma mais decisiva problemas criados, reconhecesse que euro é decisivo".

"Noto um pouco mais de solidariedade", admitiu.

Ainda a propósito de solidariedade, o Presidente da República insistiu na necessidade de Portugal ser solidário em relação à Grécia, sublinhando que "seria desastroso" para aquele país a saída do Euro.

"Se no dia 1 e 2 for aprovado o novo programa de 130 mil milhões de euros para a Grécia, então temos enterrado a ideia do possível colapso do Euro", sublinhou Cavaco Silva.

Relativamente à forma como a Europa reagiu à crise, o chefe de Estado renovou as críticas à "má gestão" que foi feita, à "cacofonia", lamentando que se tenha andado "de atraso em atraso, de irrealismo em irrealismo", numa "verdadeira saga" até se chegar a um acordo para a Grécia.

"Queremos é que Europa fale a uma só voz de 27 e não de dois ou três", preconizou, voltando a criticar a existência de um "diretório", uma situação que é "bastante negativa porque põe em causa a coesão, o espírito de solidariedade", e apontando "responsabilidades partilhadas" na crise das dívidas soberanas.

Admitindo que nos próximos tempos não será possível criar um ministro das Finanças europeu e notando que a Europa está "muito longe" de ter um orçamento federal, o chefe de Estado notou que isso "não significa que não se vá tentar cada vez mais acompanhar o desenho dos orçamentos e a execução dos orçamentos dos Estados membros", com a matéria orçamental a ser cada vez mais matéria comum, em que cada país tem influência nos outros.

Interrogado se entende que há demasiada austeridade nos países que estão a ser intervencionados, Cavaco Silva lembrou que desde o início da crise defendeu que "ao lado da disciplina orçamental não pode deixar de estar uma agenda de crescimento económico", caso contrário a situação será "socialmente insustentável".

"A austeridade orçamental é uma condição necessária, é preciso que exista no conjunto dos países disciplina orçamental, que não exista excesso de endividamento público e excesso de défice público, mas ao mesmo tempo políticas que favoreçam o crescimento económico, o combate ao desemprego, em particular o combate ao desemprego jovem", defendeu o Presidente da República.