Política

"Este é o primeiro de um dos últimos dias do Governo"

"Este é o primeiro de um dos últimos dias do Governo"

António Costa venceu as primárias com ampla maioria, 67,88% do eleitorado socialista. Seguro demitiu-se. O líder da bancada parlamentar também. Até ao congresso que elegerá o novo secretário-geral, o PS fica entregue a Maria de Belém Roseira.

A noite eleitoral, que se antecipava longa, acabou afinal antes das 21 horas. Cinquenta minutos depois de as urnas terem fechado, António José Seguro admitia a derrota e, tal como prometera fazer, demitiu-se. "Cesso hoje as minhas funções de secretário-geral do PS", começou por afirmar o candidato derrotado, anunciando, num discurso emotivo e escrito, na sede do partido, o regresso "à condição de militante de base do PS", sem no entanto desvendar se se manterá como deputado na Assembleia da República.

Vinte minutos antes, à chega ao Fórum Lisboa, já António Costa dava a vitória como adquirida. "Os resultados que chegam de todo o país demonstram que o PS está unido e tem uma maioria muito expressiva, clara e inequívoca que apostou e votou na minha candidatura".

A confirmação chegaria pouco depois de forma tão expressiva - Costa venceu até nos distritos considerados bastiões de Seguro, como Braga - que o autarca de Lisboa decidiu formalizar a vitória. Eram 21.25 horas.

Num discurso curto, virado essencialmente para o país e para o futuro, o agora candidato socialista a primeiro-ministro traduziu os votos de quase dois terços como a "força de vontade de mudança em Portugal" e anunciou o fim do consulado de Passos Coelho. "Este é o primeiro dia de uma nova maioria de governo. E é o primeiro dos últimos dias deste Governo".

O candidato, que afirmou durante a campanha que rapidamente uniria o partido, considerou que "estas eleições não foram a derrota de ninguém" e que "o único vencedor das primárias foi o PS". Ainda assim, nos poucos minutos de discurso, nunca mencionou António José Seguro. Aliás, não só não cumprimentou o adversário como, chegado ao púlpito, ladeado pelo mandatário Carlos César, pela diretora de campanha Ana Catarina Mendes, pelo anterior líder socialista Eduardo Ferro Rodrigues e pelo histórico Manuel Alegre, retirou o cravo que tinha na lapela e atirou-o aos apoiantes: "isto é vosso".

O gesto, que poderá ter sido inocente, não pode deixar de ser lido à luz do vídeo da candidatura de Seguro que sugeria que Costa cortara a flor de que ele cuidara. No fim, Seguro venceu só na Guarda.

"Afluência massiva"

Filtrando esse episódio, o PS resolveu ontem o problema político com que se debateu nos últimos quatro meses, e que fraturou e expôs o partido, mas enfrenta agora um conjunto de decisões provisórias [ver caixa], que surgem no meio da discussão e da votação do Orçamento do Estado (OE) para 2015. O OE deverá ser apresentado a 15 de outubro e, se os prazos estatutários forem cumpridos, o congresso em que António Costa deverá ser entronizado secretário-geral do partido, não deverá acontecer antes de novembro.

No fim da noite, Jorge Coelho, presidente da comissão eleitoral, sublinhou que fica para a história a "massiva afluência às urnas" nas primárias. Votaram 170 mil pessoas das cerca de 240 mil inscritas.