Política

Maioria dos europeus não votou ou votou contra a Europa

Maioria dos europeus não votou ou votou contra a Europa

Havia duas quase certezas, as duas temidas, as duas confirmadas: a abstenção manteve-se acima dos 60% e a extrema direita ganhou terreno no Parlamento Europeu. Muito, com os neonazis alemães a elegerem um eurodeputado pela primeira vez. Ainda assim, o PPE voltou a ganhar, mantendo a maioria para os que defendem a Europa.

Há menos de uma semana, os franceses disseram ter ficado chocados com a solução de Jean-Marie Le Pen, presidente honorário da Frente Nacional, para o problema da imigração. "O Sr. Ébola é capaz de resolver isso em três meses", afirmou o fundador do partido de extrema direita, aparentemente disposto a banir os imigrantes através de um vírus altamente mortal.

O choque dos eleitores não teve tradução nas urnas. Pelo contrário. Jean-Marie é pai de Marine, cabeça de lista da Frente Nacional, os dois eram candidatos ao Parlamento Europeu, os dois foram eleitos numa vitória histórica (25%) que coloca o partido anti-euro e anti-imigração como principal força política do país da "liberdade, igualdade, fraternidade", e atira o socialista François Hollande para um complexo terceiro lugar.

Por isso mesmo, Le Pen pai, pediu logo, na primeira declaração da noite, a demissão do Governo. "A Assembleia Nacional deve ser dissolvida", afirmou, e o primeiro-ministro, Manuel Valls, "deve demitir-se". Le Pen filha seguiu-lhe as pisadas. Sentiu "o desejo de liberdade do povo francês" e pediu legislativas antecipadas.

O resultado francês é só a amostra mais evidente da radicalização em que a Europa mergulhou. Os poucos eleitores que votaram (43,1%) extremaram posições: nos países ricos, a extrema direita ganhou terreno (no Reino Unido venceu o partido euro-céptico UKIP com 35%); nos países mais pobres ou intervencionados pela troika, foi a esquerda radical que ganhou pontos.

É o caso da Grécia, em que o partido anti-austeridade de Alexis Tsipras, Syriza, é agora a primeira força grega, derrotando a Nova Democracia liderado pelo primeiro-ministro Antonis Samaras.

O Parlamento Europeu que tinha 47 eurodeputados integrados em duas famílias de extrema direita - o Movimento pela Europa das Liberdades e da Democracia (MELD) e a Aliança Europeia dos Movimentos Nacionais (AEMN) -, representando 6% do hemiciclo, passará a ter agora o dobro.

Ainda assim, e apesar de ter perdido 60 lugares, o Partido Popular Europeu, grupo de centro direita a que pertencem o PSD e o CDS, voltou a ganhar, pelo que o putativo sucessor de Durão Barroso à Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, apressou-se a reclamar a presidência. O adversário Martin Schulz duvidou até ao fim da projeção que dava a derrota aos socialistas. Estava enganado.