Política

Passos não se demite e exige "clareza" ao CDS

Passos não se demite e exige "clareza" ao CDS

"Não me demito! Não abandono o meu país!" Se revela determinação, a garantia de Passos Coelho não oculta um repto ao CDS: que esclareça se se mantém na coligação governamental após a demissão de Portas. Esta quarta-feira saem os outros ministros centristas.

Por diversas vezes, na declaração ao país, o primeiro--ministro usou a palavra clareza. Na última, associou-a a uma frase que, por si só, exprime a clareza da sua própria estratégia: "Um Governo de coligação é um compromisso permanente".

Tal significa que interpreta a iniciativa de Paulo Portas como sendo de natureza pessoal - não desonerando, portanto, o CDS do vínculo à aliança que suporta o Governo. Trata-se de levar à letra o comunicado em que o ministro demissionário explica as suas razões - a discordância face à escolha de Maria Luís Albuquerque para ocupar o lugar de Vítor Gaspar nas Finanças - nunca amarrando o CDS à sua decisão.

A aposta em falar "diretamente" ao partido mais pequeno da coligação - deixando nas entrelinhas a acusação de que o ministro dos Estrangeiros abandonou o barco - explica o fio condutor da intervenção do chefe do Governo.

Em primeiro lugar, a obstinação de prosseguir o "único rumo" capaz de, na sua ótica, proporcionar ao país a saída da crise, assumindo-se como "baluarte de confiança e tranquilidade". Tão sólida que se prepara para participar, esta quarta-feira em Berlim, numa conferência sobre o fomento do emprego jovem na Europa, como se nada tivesse acontecido.

No mesmo plano, a revelação de que não aceitou a demissão do ministro de Estado - afirmou mesmo que o apanhou de surpresa -, nem pediu ao presidente da República a sua exoneração. O passo é apenas formal, embora politicamente irrelevante, já que Portas apresentou a demissão como irreversível. Mas permite a Passos Coelho ganhar algum tempo para explorar eventuais divergências no interior do CDS, onde já se admite que o congresso do próximo fim de semana seja adiado.

O "dia D" de Passos

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O silêncio do CDS acentua a situação de impasse político. E pode condenar ao fracasso a estratégia de Passos, traçada no fio de navalha de uma indesmentível crise política, se se confirmar a disposição dos membros centristas do Governo de acompanharem o seu líder na saída.

Nestas condições, esta quarta-feira é o "dia D" de Passos Coelho. O seu futuro político joga-se mais na reunião da Comissão Executiva do CDS do que na audiência de Cavaco Silva a António José Seguro. Caso Mota Soares, Assunção Cristas e companhia façam as malas, poderá também ser forçado a traçar planos de viagem, já que nem o recurso a uma "clarificação" no Parlamento constitui alternativa fiável.

Passos terá, por outro lado, de preocupar-se com outras frentes. A interna, por um lado: há setores do PSD que também não aceitam a escolha da nova ministra das Finanças. A externa, por outro: o PS já não pode, nesta sessão legislativa, apresentar uma moção de censura, mas manterá a reivindicação de eleições antecipadas. E o PCP convocou para esta quarta-feira duas manifestações com a mesma exigência.

Garantias do CDS

A aposta imediata do primeiro-ministro consiste em comprometer o CDS com uma solução, no pressuposto de que a iniciativa de Paulo Portas foi pessoal. Procurará insistir na estabilidade que os representantes dos credores exigem e insistir no "dever patriótico" de preservar a aliança.

Acordo parlamentar

A substituição do titular dos Estrangeiros é o menor dos problemas de Passos. Precisando, como de pão para a boca, de suporte político para o Governo, a saída para o impasse pode ser um "plano B"; um acordo de incidência parlamentar PSD-CDS, que garantiria a sua sobrevivência.

Moção de confiança

A possibilidade de o Governo suscitar um voto de confiança na Assembleia da República está em aberto. O alcance da jogada é óbvio: obrigar o CDS a definir a sua posição no seio da coligação. E imputar-lhe as culpas pela crise política, caso ouse abster-se ou votar contra.

Eleições antecipadas

O presidente tudo tem feito para garantir a estabilidade governativa, pelo que a dissolução do Parlamento é o cenário mais remoto. Como a Constituição já não prevê governos de iniciativa presidencial, esta opção implicaria manter o Governo em gestão após marcar eleições. Nada provável.

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