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Correios de droga fazem última "escala" no Hospital São José

Correios de droga fazem última "escala" no Hospital São José

A Polícia Judiciária quase poderia fazer parte do corpo profissional do Hospital São José, a julgar pelas vezes que é vista nos corredores a vigiar pessoas que são "internadas" até expulsarem os invólucros de droga que transportam no organismo.

São essencialmente homens jovens e de meia-idade, mas também, e cada vez mais, mulheres, idosos e até famílias, as pessoas que transportam "bolotas" com droga dentro do estômago, explicou à Lusa o diretor do serviço de urgência, Ricardo Matos.

O médico conhece bem esta realidade, pois é com "bastante frequência" que estes utentes são levados para o hospital pela Polícia Judiciária, por suspeita de transportarem substâncias ilícitas.

Durante uma visita da Lusa às urgências do São José, marcava presença no corredor do Serviço de Observação um inspetor da PJ, de pé à porta da sala onde se encontrava desde o dia anterior um "correio de droga".

E nquanto passava uma maca com um cadáver, logo seguida por outra com um politraumatizado grave, a quem os médicos apressadamente levavam a fazer uma TAC, o inspetor mantinha-se impávido e sereno na sua função, aguardando que o detido defecasse.

"Temos muitos casos de transportadores. A PJ trá-los, fazem um raio-x e confirma-se ou não a presença de corpos estranhos. Após esta identificação, eles ficam aqui em vigilância até os terem libertado e depois saem sob prisão", explicou o médico.

Chegam a ficar no hospital dois dias à espera que a droga saia, mas por vezes isso acaba por não acontecer, quando os invólucros ficam presos nas paredes do intestino provocando uma oclusão.

Nestes casos o detido "passa a ser um doente do foro médico" e os profissionais são obrigados a intervir, submetendo o paciente a uma cirurgia.

Ricardo Matos admite que tem havido casos destes e, embora mais raramente, situações em que a cápsula rebenta libertando a droga dentro do organismo.

Também nestes casos "tem que se atuar medicamente para sustentar as funções do doente, porque pode morrer".

A rotina no serviço de observação prossegue: uma senhora chora um familiar, idosos recebem suporte ventilatório, médicos e enfermeiros circulam apressados, auxiliares empurram macas.

No meio de toda esta azáfama, o inspetor da PJ permanece de pé, casaco vestido e cachecol ao pescoço, alheio a estes movimentos, aguardando apenas que o intestino do "correio" cumpra a sua função.