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Quatro GNR cobravam para proteger negócios chineses

Quatro GNR cobravam para proteger negócios chineses

Quatro militares da GNR de Vila do Conde foram apanhados num esquema de corrupção, peculato e abuso de poder. Vítimas, e ao mesmo tempo beneficiários, foram, entre outros, comerciantes chineses.

De acordo com indícios reunidos pela investigação da Polícia Judiciária, à cabeça do grupo estava o ex-comandante do posto, Rui Silva, na casa dos 40 anos, que foi exonerado em julho passado, quando foi de férias, já por suspeitas de prática de ilícitos. Mais três guardas, P.C., M.G. e P.P., com idades entre 25 e 35 anos, ficaram detidos, sob custódia da GNR, em celas das instalações de Matosinhos e Maia.

O esquema do quarteto consistia em usar das suas funções para levar comerciantes a entregar-lhes dinheiro e bens alimentares. Há casos ocorridos em operações de trânsito mas também em fiscalizações. Algumas destas seriam astuciosamente provocadas para criar a convicção de que era necessário subornar os militares da GNR para não terem problemas e serem favorecidos. Práticas de extorsão que, afinal, se transformavam em corrupção.

Durante a investigação foram reunidos elementos que apontam para o desaparecimento de livros de multas precisamente para beneficiar os pagadores. Também valores que deveriam reverter a favor do erário público ficaram na posse dos militares. Por outro lado, terão sido ainda concertados depoimentos em processos-crime, destinados também, em última instância, beneficiar os "clientes" envolvidos.

Hierarquia denunciou

Os alvos preferidos dos militares eram comerciantes chineses, na zona industrial da Varziela, em Vila do Conde. Mas há também casos de portugueses visados. Os indícios recolhidos apontam para a prática de ilícitos desde, pelo menos, maio do ano passado. Contudo, as suspeitas sobre aqueles militares vêm de há mais tempo. Foi, aliás, o próprio comando da GNR, através do Destacamento Territorial de Matosinhos, que formalmente denunciou o caso e deu origem à investigação.

Ontem, munida de mandados de busca e detenção do Ministério Público e do juiz de instrução criminal de Vila do Conde, a PJ deteve o sargento-ajudante Rui Silva em pleno quartel do Carmo, no Porto, em conjugação com a hierarquia da própria GNR.

Já no posto de Vila do Conde foram detidos os outros três envolvidos, que ficaram à responsabilidade daquela força militar . Nas buscas foi apreendida diversa documentação que poderá estar relacionada com os crimes. Os quatro são presentes hoje ao Tribunal de Vila do Conde, para aplicação de medidas de coação.

Já em abril passado, B.G., um outro militar da GNR de Vila do Conde, foi constituído arguido, por suspeita de ter-se apropriado de dinheiro de multas de trânsito, num esquema que envolvia falsificação de registos. Este guarda já tinha sido apanhado a conduzir carros-patrulha sem carta.

Conhecida por "Chinatown", por concentrar centenas de armazéns e lojas de cidadãos asiáticos, a zona industrial da Varziela tem estado na mira das autoridades por casos de extorsão, jogo ilegal, ajuste de contas a tiro, branqueamento de capitais e contrafação. Em março passado, a Polícia Judiciária deteve três cidadãos chineses e desmantelou um casino clandestino. O líder deste grupo terá exigido 40 mil euros a um empresário para "autorizar" que ele instalasse um negócio em Vila do Conde. No ano passado, um outro indivíduo chinês foi condenado a seis anos e meio de prisão por tentativa de homicídio, num processo que foi rotulado de "ponta do icebergue" da máfia chinesa em Portugal.

* COM ALEXANDRE PANDA E ANA CORREIA E COSTA