Sociedade

15 mil manifestaram-se contra o Governo frente ao Palácio de Belém

15 mil manifestaram-se contra o Governo frente ao Palácio de Belém

Quinze mil pessoas protestaram, sexta-feira, frente ao Palácio de Belém, enquanto decorria a reunião do Conselho de Estado. Durante oito horas, viveram-se momentos de tensão entre manifestantes e polícias, que terminaram com a detenção de cinco pessoas. No final da reunião, algumas centenas assobiaram e vaiaram os conselheiros.

A reunião do Conselho de Estado terminou, ao início da madrugada deste sábado, quase oito horas depois de arrancar.

Centenas de pessoas manifestaram sua indignação, assobiando e vaiando os conselheiros de Estado à saída do Palácio de Belém: "Cobardes" e "gatunos", gritaram bem alto .

"O povo unido jamais será vencido" foi também outra das palavras de ordem ouvidas no final da reunião dos conselheiros de Estado.

Os manifestantes gritavam enquanto saíam do palácio presidencial, pela porta principal, as viaturas em velocidade acelerada.

Ao longo da noite, foram muitos os que esperaram pelo fim da reunião do Conselho de Estado em frente ao Palácio de Belém.

Agitação acaba com cinco detenções

Houve cinco detenções, pelas 22 horas, quando um grupo de manifestantes tentou romper a primeira barreira policial e começaram a arremessar garrafas e petardos. Os ânimos acalmaram depois.

Sem detalhar a idade dos detidos, fonte do comando metropolitano da PSP explicou que quatro pessoas foram detidas por arremesso de petardos e outra por resistência e coação.

A PSP foi obrigada a reforçar os meios no local e, em 20 minutos, chegaram quatro contigentes do corpo de intervenção.

Ao início da noite, chegaram mais dois contigentes, à medida que aumentava o rebentamento de petardos lançados por um grupo de estivadores.

Um fotojornalista foi atacado com uma pedra atirada por um dos manifestantes. A Comunicação Social manteve-se, sobretudo, concentrada numa zona próxima do cordão policial.

As palavras do protesto

Cavaco escuta "o povo está em luta", foi uma das frases que mais ouvidas no jardim Afonso de Albuquerque, em frente ao Palácio de Belém, em Lisboa, mas o momento alto aconteceu quando cerca de dez mil pessoas cantaram, em uníssono, o tema "Acordai", de Fernando Lopes-Graça, enquanto se distribuiam flores brancas.

A concentração estava prevista para as 17.30 horas, mas os participantes começaram a chegar antes da hora marcada.

A chamar a atenção dos cidadãos esteve um grupo de cinco fuzileiros que participam no protesto fardados.

Entre os manifestantes, o deputado comunista Miguel Tiago declarou que "não se trata de uma concentração contra a Taxa Social Única (TSU), mas sim contra a troika e o Governo. Ainda não ouvi falar da TSU aqui".

Junto ao Palácio de Belém estiveram polícias com equipamento antimotim e numa das ruas laterais do palácio houve elementos do Grupo Operacional Cinotécnico da PSP.

No Porto, os 100 mil da semana passada ficaram reduzidos a 200 - embora no Facebook pelo menos 500 tenham confirmado a presença -, mas o ânimo e a contundência dos manifestantes que participaram, ao final da tarde, no protesto na Avenida dos Aliados, não foram afetados pela fraca mobilização.

"Somos menos, mas estamos cá todos", frisou um dos presentes, apelando a uma presença em massa na manifestação marcada para o dia 29: "É preciso invadir Lisboa".

Por entre votos para que se "deixe morrer o 15 de Setembro", os membros da assembleia popular improvisada desfiaram as razões que estão na base do repúdio das medidas de austeridade. "Não aceitamos mais cortes", defenderam.

A recusa do memorando da troika foi mesmo um dos poucos pontos em comum nas dezenas de intervenções populares que se seguiram, nas quais tanto se exigiu o boicoite às próximas eleições como a responsabilização criminal dos atuais governantes.

Mais a norte, em Braga, foram poucos os que se juntaram na Avenida Central. No coreto, epicentro do protesto bracarense, ficou um mural onde as pessoas escreveram o descontentamento com as medidas de austeridade.

"Passos privatiza a tua mãe" ou "devolvam a nossa liberdade" foram algumas das frases deixadas por anónimos e que visam, essencialmente, Passos Coelho e Vítor Gaspar.

Outros, de forma original, fizeram-se transportar em bicicletas com mensagens.

Ao mesmo tempo, o movimento de Braga convocou para sábado, também na Avenida Central, uma manifestação para as 15 horas.

Já em Viseu, cerca de quatro dezenas de pessoas participaram na vigília que decorreu no Rossio.

A iniciativa contou com parca adesão na cidade de Viseu, "porque não houve o mesmo tempo de preparação como para a manifestação do último sábado", alegou António Gil, membro da organização.

Em dia de feriado municipal, Cláudia Saraiva não quis deixar de sair à rua, para demonstrar o seu descontentamento, fazendo acompanhar-se pelos seus dois filhos menores, para que "desde pequenos aprendam que é preciso lutar contra as injustiças".

Opinião partilhada por Maria José, que sublinhou que é preciso terminar com o conformismo. "Numa cidade conhecida por Cavaquistão, qualquer coisa que se consiga é uma vitória", alegou.

Em Aveiro, pouco mais de 100 pessoas reuniram-se, ao final da tarde, na Praça da República, em frente ao edifício da Câmara Municipal.

"Gaspar, deixa de nos assombrar" ou "para este circo não preciso de Governo, chega de palhaços", eram algumas das frases legíveis nos poucos cartazes que os populares levaram para a rua.

"Contávamos com maior adesão por parte das pessoas. Mesmo aqui, estamos aqui até a vigília terminar em Lisboa e, caso seja preciso, iremos para lá ter com os nossos colegas", disse, ao JN, uma das organizadoras da vigília, quando passavam mais de duas horas desde o início da vigília.

Em Bragança, eram cerca de 20 pessoas; em Faro, concentravam-se cerca de 150 manifestantes e, em Coimbra, chegaram a 200.

A cerca de meia centena de que se manifestou em Évora chegou mesmo a cortar o trânsito na Praça do Giraldo.

A iniciativa foi marcada pelo movimento "Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas", após as manifestações que reuniram, no dia 15, centenas de milhares de pessoas em diversas cidades do país.

Além da vigília junto ao Palácio de Belém durante a reunião do Conselho de Estado, marcaram-se concentrações para outras 15 cidades portugueses, assim como em Londres, Inglaterra.

"Não queremos apenas mudanças de nomes, queremos mudanças de facto. A 21 de setembro iremos concentrar-nos junto ao Palácio de Belém para demonstrar que 15 de setembro não foi uma mera catarse coletiva, mas um desejo extraordinário de mudança de rumo", lê-se na convocatória colocada no Facebook.

*com Lusa