Sociedade

25 empresas dão trabalho a sem-abrigo em Portugal

25 empresas dão trabalho a sem-abrigo em Portugal

Em 2011, das 374 pessoas acolhidas pela Cais, 34 encontraram trabalho.

Casos de sucesso na reintegração de sem-abrigo nas empresas nacionais levam responsável a defender replicação do modelo na Europa.

"A esmola é importante, mas não muda a vida das pessoas. Fornecer bens alimentares é fundamental, mas o que devolve dignidade à vida das pessoas é o trabalho".

Henrique Pinto, presidente da Cais, associação de apoio aos sem-abrigo, define assim a missão da estrutura que entrou na maioridade, e que este ano foi distinguida em Bruxelas com o prémio Civil Society Prize pelo Comité Económico e Social Europeu, pelos projetos de empregabilidade social para pessoas em risco de exclusão social. "A pobreza reduz-se com trabalho", insistiu.

Nesse sentido, a Cais dinamiza, desde 2002, o Protocolo Abrigo, ao qual aderiram 25 empresas que possibilitam a reintegração social de utentes da associação absorvendo-os no mercado de trabalho. Há igual número de empresas não protocoladas, mas que também colaboram igualmente com a Cais.

"Ninguém chega do nada. As pessoas têm experiência, têm passado. A tentação é esquecer isso; nós fazemos o contrário: depois de suprirmos necessidades básicas (higiene, saúde, afeto), procuramos recuperar esse passado, atualizá-lo e oferecer novas ferramentas para que possamos passar para a fase seguinte: encontrar trabalho. É missão que não conseguiríamos cumprir sem a ajuda de algumas empresas portuguesas" [ver rodapé].

Em 2011, o mercado de trabalho absorveu apenas 9% das pessoas acolhidas pela Cais, mas Henrique Pinto não se deixa impressionar pelo número que "gostava que fosse maior". "Há pessoas que já não podem trabalhar, mas podem ser úteis à sociedade de outras formas."

À cerimónia de entrega do prémio, que decorreu na semana passada, no Parlamento Europeu, o presidente da Cais levou um desafio: "Precisamos de uma estratégia europeia para tirar as pessoas da rua. Precisamos de trabalhar em rede, de replicar as políticas sociais eficazes." Recorde-se que na União Europeia (UE), de acordo com os dados mais recentes do Eurostat, existem quase 120 milhões de pessoas em risco de exclusão social. Desses, 2.5 milhões são portugueses. Apesar disso, o responsável pela associação premiada - o prémio teve o valor de dez mil euros - obteve solidariedade, mas não uma resposta.

Confrontado pelo JN com o desafio lançado pela Cais, Silva Peneda, presidente do Conselho Económico e Social, afirmou que "a troca de experiências sobre as melhores práticas é positiva", mas as sinergias devem cessar aí. "Cada país tem a sua cultura e os seus problemas, a resposta só pode ser individual."

Para o ex-ministro de Cavaco Silva, "é impensável colocar na agenda europeia a ideia de uma política social comum". E mesmo sobre as metas comuns de combate à pobreza - a Estratégia 2020, promete tirar 20 milhões da pobreza na UE, 200 mil só em Portugal -, tem muitas dúvidas. "É irrealista. Houve falta de visão em relação à crise do Euro e lentidão na resposta. Vamos pagar um preço alto e longo por isso." A pobreza, diz, "não vai diminuir, vai crescer. A Europa falhou, é dececionante".

Carlos Pereira Martins, membro do Conselho Económico e Europeu, responsável pela nomeação da Cais, defende que "todos os presidentes da República vivos têm o dever de ajudar". E explica porquê: "O calendário eleitoral impede os políticos no ativo de transporem a linha de curto prazo. O empurrão tem que vir das autoridades supra-sistema".