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"A opção era a falta de opções, era ir para a guerra ou fugir"

"A opção era a falta de opções, era ir para a guerra ou fugir"

Tinha 22 anos, o curso de Engenharia Civil na recta final, a vida inteira pela frente. Mas o serviço militar era obrigatório e Augusto Freitas, mesmo podendo pedir licença para o adiar, sentiu que tinha de tomar uma decisão: "ou ia naquela altura, quando ainda tinha pujança, ou mais tarde, já com barriga, arriscando-me a não voltar". Foi.

"A opção era a ausência de opções, era ir para a guerra ou fugir." Foi para Moçambique em 1973, ficou dois anos. Nessa altura, "a informação já estava a chegar de outra maneira. Já dava a entender que não havia possibilidade de o nosso país destruir os outros povos. A dimensão das nossas ex-províncias era 14 vezes maior que o nosso território".

A sua experiência, no entanto, é diferente da maioria. "Eu era de Engenharia, a nossa arma era diferente das outras. Nós fomos para o engrandecimento daqueles povos, fazer estradas, pontes, casas. Deixámos lá obra, a barragem de Cahora Bassa é o maior lago artificial do Mundo", conta, a rebentar de orgulho.

Estar do lado menos difícil, os soldados a guardarem-lhe as costas, não atenua a memória do que viveu. "Estava a tirar minas no Norte de Moçambique, na fronteira com a Tanzânia, tirámos aproximadamente 500 mil minas - e não foi com detector de metais, foi com máquinas a revolver a terra". Até que os soldados dissessem "basta" - sobram ainda hoje dezenas de campos de minas por desactivar -, havia um único pensamento a dominá-los: "sobrevivemos aos bombardeamos do inimigo, sobreviveremos às minas? Não podíamos saber se alguma nos rebentaria nas mãos, se morreríamos hoje ou manhã, há nisto uma pressão psicológica muito grande", confessa, mesmo para quem, como ele, considera que "morrer pela pátria é divino".

A experiência, mesmo se suave por comparação, foi suficiente para que Augusto Freitas, em 2006, aceitasse presidir à Associação Portuguesa de Veteranos de Guerra. Ele está lá para tudo, para o que der e vier. "Há ex-combatentes que me ligam às duas, três da manhã a dizer que se vão matar. Estou ali para os impedir".

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