Domingos Carvalho, 67 anos

"Achava que poderia ser auto-suficiente, uma ilusão"

"Achava que poderia ser auto-suficiente, uma ilusão"

O primeiro olhar é induzido em erro quando pousa naquele homem, sorriso largo, cabelo grisalho, de mãos delicadas e pele engelhada.

O senhor Domingos, prisioneiro da cadeira de rodas, acena do cimo dos degraus da casa de onde não sai há dois invernos. Tem 67 anos. Tinha 22 quando foi para a Guiné, recrutado como milhares, sem escolha, "para defender a pátria, era educado assim". Eram todos. "Fiz o curso de sargentos milicianos em Tavira, depois fui para Tancos, para as minas e armadilhas. Toda a gente fazia por reprovar, ninguém queria brincar com minas. Mas eu passei", conta, na voz o desgosto. Foi para a guerra em Maio de 1966. "Era atirador, colocava bombas, armadilhas, granadas. Era assim".

Regressou a Braga em 1968, o cessar-fogo ainda longe do fim. Com ele trazia feridas invisíveis. "Há quem agora lhes chame trauma, na altura ninguém falava." A readaptação "custou muito." "Quando cheguei, achava que já estava numa idade avançada, que já cumprira o meu dever, e já tinha visto tanto, mas a mãe ainda me tratava por menino. Só aí percebi que ainda era menino, mesmo se já não era assim que me sentia."

O senhor Domingos nunca casou. Esteve quase, "mas não estava psicologicamente preparado. Não entrava em pânico, mas sonhava com situações pouco agradáveis. E o tempo foi passando". Vive sozinho, viveu quase sempre. O olhar erra quando pousa sobre ele, porque não foi a guerra que o impediu de andar. Foi a vida. "Um dia, bebi um bocadinho, caí nas escadas e parti o fémur. Só fui encontrado no dia seguinte". Foi em 1993. A perna ganhou infecção atrás de infecção, a ferida não cicatrizou, os médicos querem amputá-la, ele não deixa. Há dois anos, partiu a outra. Nunca mais saiu de casa, ele que todos os dias ia à cidade ler jornais. "Achava que podia ser auto-suficiente, era uma ilusão, ninguém é". Vive sozinho, faz uma refeição por dia. Só. E lê. Lê muito. Sobretudo quando chega a Primavera e os dias crescem. Numa casa sem luz tem de ser assim. Lê "cinco horas por dia." Não fosse a guerra, teria estudado mais. "Gostava de ter conhecimento científico das coisas."

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