João Paulo II

Críticos consideram prematura e errada canonização de João Paulo II

Críticos consideram prematura e errada canonização de João Paulo II

O Papa João Paulo II conquistou uma popularidade esmagadora e tornou-se quase consensual na Igreja e no mundo, mas há setores que apontam falhas ao seu pontificado e consideram a sua canonização prematura e errada.

João Paulo II, que será canonizado no domingo juntamente com o papa João XXIII, é criticado sobretudo pela sua condenação da Teologia da Libertação, pela proteção da Igreja face às acusações de pedofilia contra padres e bispos e pelo exercício de um poder demasiado pessoal.

Apesar de ninguém questionar a estatura mundial do polaco Karol Wojtyla, as críticas ao seu pontificado tem-se feito ouvir desde que o Papa emérito Bento XVI lançou o processo de canonização, sem esperar os cinco anos previstos pelo Vaticano após a morte.

O movimento contestatário europeu "Nós somos Igreja" considera "trágico" em João Paulo II "o contraste entre o seu compromisso com as reformas, o diálogo no mundo, e o retrocesso que impôs à Igreja no sentido da centralização das estruturas".

O movimento aponta o seu "autoritarismo dogmático" contra os bispos, teólogos e religiosos contestatários, a "inflação de canonizações", a "visão retrógrada de uma Igreja centralizada", a aceitação de um "culto da personalidade" contrário ao Evangelho, a "pompa" e o "clericalismo" do seu pontificado.

As críticas à canonização do Papa peregrino, que ficou conhecido pelas suas muitas viagens pelo mundo e pela sua devoção mariana, chegaram mesmo a ser assumidas publicamente por alguns prelados como o cardeal italiano Carlo Maria Martini, que morreu em 2012.

Segundo o livro do historiador Andrea Riccardi "A santidade do Papa Wojtyla", Carlo Maria Martini considerava que existiam "limites" no processo de canonização, e apontava "nomeações infelizes" de colaboradores, apoio excessivos aos novos movimentos da Igreja, relegando as igrejas locais para segundo plano, como forma de "se colocar no centro das atenções".

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Também na América Latina João Paulo II granjeou inimigos pela sua condenação dos bispos e teólogos "vermelhos", substituindo-os por ultraconservadores pouco sensíveis às questões sociais.

O cardeal Georges Cottier, antigo teólogo da casa pontifícia, explica, citado pela agência France Presse, a grande incompreensão suscitada pelas suas decisões.

"Fruto da sua experiência do comunismo, de que era adversário" na Polónia, afrontava "os latino-americanos orgulhosos da sua teologia sul-americana e que consideravam que o marxismo era a solução para os seus problemas de miséria", disse.

Mesmo os bispos moderados, como o arcebispo de São Salvador Oscar Arnulfo Romero, assassinado em 1980 pela extrema-direita, sentiram a incompreensão de Karol Wojtyla.

Depois de ter sido recebido pelo Papa polaco em 1979, saiu da audiência "destruído, aflito", segundo o teólogo italiano Giovanni Franzoni, depois de ter sido aconselhado pelo pontífice a "concordar com o governo" na questão dos sem terra.

Outros setores acusam João Paulo II de ter protegido a Igreja face aos escândalos da pedofilia, fechando os olhos à dimensão dos crimes e recusado ir tão longe como o seu sucessor Bento XVI, que pediu perdão às vítimas.

O seu prolongado apoio ao cardeal austríaco Hans-Hermann Gröer, alvo de acusações, mas sobretudo ao padre mexicano Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, que chegou a ser recebido em audiência em 2004 quando já acumulava acusações de corrupção e abusos sexuais.

Este novo movimento da Igreja, conservador, obediente à autoridade papal, capaz de encher os seus seminários em plena crise de vocações impressionava João Paulo II.

Também criticadas foram as suas posições conservadoras em matéria de costumes, nomeadamente a intransigência sobre o casamento, a sexualidade ou a família, posições apoiadas por alguns católicos, mas incompreendidas por milhares de liberais no ocidente.

A recusa do uso do preservativo enquanto milhões de pessoas em África morriam com Sida chocou muitos dos seus detratores.

Centralismo, falta de colegialidade nas decisões e concentração das atenções mediáticas, são críticas ouvidas mesmo em meios próximos do Vaticano.

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