José Manuel, 60 anos

"Descobri na Guiné que só os pobres foram para a guerra"

"Descobri na Guiné que só os pobres foram para a guerra"

Era noite de S. João, no Porto, quando José Manuel, 20 anos, furriel de armas pesadas, integrou companhia rumo à Guiné.

Estávamos em 1972 e "lá os foguetes eram outros". Mas não foi isso que o impressionou. Foi perceber rapidamente que a realidade não coincidia com a verdade da metrópole. "Parti convicto de que a razão estava do nosso lado. Mas mal lá cheguei, senti que a guerra não fazia sentido, que as pessoas de lá também tinham valor, ideais, também sabiam o que faziam."

Fazer uma guerra assim, com esta consciência, é duplamente violento. E piora quando se perde um amigo logo na primeira emboscada. "A nossa primeira baixa foi o José António Mata, rapaz casado, foi para lá à espera de filha. Não chegou a conhecê-la". José Manuel tem a voz embargada, dificuldade em retomar o discurso. Não descansou enquanto não descobriu o paradeiro dessa rapariga. "Está em França, vamos encontrar-nos em Junho. Já falámos por telefone, ela diz que vê em nós o pai que nunca teve. Isso é muito bonito", comove-se. "Estou ansioso por vê-la, tenho dois filhos, ela será mais uma filha."

Este homem, que tem na Régua a sua pátria e andou "à deriva, sem dar valor à vida, até aos 30 anos, até casar", não tem ilusões. "Toda a gente perdeu um amigo, toda a gente deixou lá qualquer coisa de si para sempre". Mas ele aprendeu a tratar das feridas, a exercitar o lado bom da História. "E perdoar é tão bom", diz. "Descobri na Guiné que só os pobres foram para a guerra, mas se não tivesse ido não teria conhecido homens extraordinários". E não teria aprendido o peso da dignidade. "A primeira vez que vi um militar ficar sem perna jurei que se me acontecesse o mesmo matava-me. Mas hoje, ao conhecer pessoas nessa situação, e com tanta dignidade, arrependo--me da promessa. Teria sido uma cobardia e um desrespeito por quem enfrenta assim a vida". Revisitou pela primeira vez a Guiné em 2009, foi recebido como amigo. Isso doeu-lhe ainda mais. Tanto que "se pudesse, ia para lá viver". A família segura-o. "Foi a minha tábua de salvação. Fi-la sofrer, mas é o deus em que acredito".

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