Sociedade

Ana Benavente considera revisão de Nuno Crato um retrocesso no ensino

Ana Benavente considera revisão de Nuno Crato um retrocesso no ensino

A ex-secretária de Estado da Educação, Ana Benevente, considerou, esta terça-feira, que a revisão curricular apresentada pelo ministro da educação, Nuno Crato, é um retrocesso no ensino.

Ana Benevente acredita que a reestruturação vai conduzir a uma divisão entre o que será uma escola para ricos, e uma escola para pobres.

Ana Benevente, ex-secretária de Estado da Educação considera que a versão final da revisão à estrutura do Ensino Básico e Secundário é negativa. Em declarações à agência Lusa, a ex-secretária disse que se trata de "um retrocesso absolutamente lamentável" e que o ensino enfrentará um "retorno à escola tradicional, que não é uma escola para todos".

A ex-secretária acredita que as medidas apresentadas na segunda-feira vão propiciar "uma escola de seleção e de exclusão".

A revisão, que vai entrar gradualmente em vigor a partir do próximo ano letivo, prevê um aumento na autonomia das escolas, assim como a realização de provas finais a partir do 4.º ano de escolaridade. Para Ana Benevente, estas previsões trazem "uma imensa contradição".

"Não será difícil adivinhar que as escolas vão organizar-se forçosamente em função dessa avaliação final", explicou, acrescentando: "É uma revisão que contraria todos os passos que foram dados na Educação para todos, com qualidade".

Ana Benavente entende que as medidas agora apresentadas vão "contra tudo aquilo que, no século XXI, se exige à escola". "Não tenho dificuldade em perceber a importância dos saberes estruturais, desde o 1.º Ciclo, agora a escola é muito mais do que isso", frisou.

A especialista considera que esta revisão vai conduzir o ensino às estruturas do passado, à "escola de disciplinas", nomeadamente de Português e Matemática. "Uma escola empobrecida", lamentou.

A ex-secretária de Estado da Educação refere ainda que, a médio-longo prazo, esta re-estruturação vai encaminhar o ensino para um sistema dual. "Com uma revisão destas nas escolas públicas, quem quer uma escola mais rica, mais diversa, com mais ofertas, vai procurar o ensino particular e não serão as classes médias, mas as pessoas com disponibilidade financeira para isso".

A coordenadora do Observatório das Políticas de Educação e Formação sublinhou que a escola pública vai voltar a ser "uma escola pobre, centrada no Português e na Matemática, com avaliação como existia antes do 25 de Abril, com exame da 4ª. Classe".

Ana Benavente chegou a declarar que se trata de pôr em causa toda a conceção da escola: "Precisamos de uma escola com suportes de saberes, em que os alunos aprendam a pensar e ganhem autonomia no seu trabalho".

No âmbito da revisão anunciada pelo ministro, os alunos do 4.º ano vão passar a realizar provas finais a partir do próximo ano letivo, com uma ponderação de 30 por cento na nota final. Atualmente fazem provas de aferição a Português e Matemática, que não contam para nota.