Sociedade

Reitor de Coimbra diz que violência na praxe é "completamente inaceitável"

Reitor de Coimbra diz que violência na praxe é "completamente inaceitável"

O reitor da Universidade de Coimbra considerou o uso de violência na praxe académica algo "completamente inaceitável". Depois de se terem registado algumas queixas de estudantes, os docentes defendem a criação de um gabinete de apoio aos alunos visados.

João Gabriel Silva, reitor da Universidade de Coimbra, considerou, esta segunda-feira, "completamente inaceitável qualquer tipo de violência" na praxe académica. Os docentes da Universidade mais antiga do país defendem a criação de um gabinete de apoio aos alunos visados.

"Os relatos que tenho visto são no sentido de ter havido atos de violência", lamentou o reitor. Depois das queixas de alguns alunos, o Conselho de Veteranos abriu um inquérito e a suspendeu, "por tempo indeterminado", a chamada "Praxe de Gozo e de Mobilização", ou seja, a interação dos "doutores" com os caloiros.

Há cerca de três semanas, João Luís, o "dux veteranorum", responsável pelo Conselho de Veteranos, disse à agência Lusa que "foram apresentadas algumas queixas de alunos de várias faculdades, de que poderá ter havido atropelos", o que motivou abaixo-assinados entre os docentes, promovidos nas Faculdades de Letras e de Economia.

"Foi feita a identificação correta de toda a gente" que esteve envolvida nos casos, disse João Luís à agência Lusa, esta segunda-feira. "Esta semana e na próxima vamos ouvir todos, para depois elaborar um relatório", afirmou.

O "dux veteranorum" entende que participar na praxe implica "civismo, juízo e educação, exige uma postura de cavalheiros, no sentido figurado". "Se alguém não estiver trajado é um arruaceiro, mas se estiver de capa e batina a culpa já é da praxe", observou.

Para João Luís, o que está em causa é o "bom senso nos comportamentos" e não a praxe académica. Não concorda, por isso, com algumas das afirmações presentes no abaixo-assinado promovido por docentes da Universidade, no que toca à "falta de educação" por parte de quem exerce a praxe.

O documento, com cerca de 120 assinaturas de professores, vai ser entregue ao diretor da Faculdade de Letras esta quarta-feira, dia em que se realiza um debate sobre "A praxe académica ontem e hoje". O debate conta com a participação dos historiadores Luís Reis Torgal e Rui Bebiano, o sociólogo Elísio Estanque, o ex-presidente da Associação Académica de Coimbra André Oliveira, e Rita Rigueiro, do Conselho de Veteranos.

"O Código da Praxe, ele próprio, é violento, defende uma série de sanções violentas, não para os que exercem a praxe, mas para os que violam a hierarquia da praxe, como alguém que não vestiu a capa corretamente, que não se comportou como caloiro, etc", revelou à Lusa, esta segunda-feira, Catarina Martins, uma das promotoras do documento.

Os docentes solicitam aos órgãos da universidade a interdição de certas formas de praxe académica, que consideram indignas, e defendem a criação de um gabinete ou outro tipo de infraestrutura de apoio aos estudantes que recusem participar na praxe.

"Estes casos deviam ser investigados mas pela Justiça", afirmou a docente. Para Catarina Martins, não tem havido mais queixas formais "porque há um clima de violência psicológica, de atemorização". "No contacto com os alunos, no dia a dia, constatamos que essa violência psicológica existe", sustentou.

Em declarações à agência Lusa, o reitor destaca que foram os próprios estudantes, através do Conselho de Veteranos, a "tomar a iniciativa de condenar" os alegados abusos e a "intervir", havendo uma espécie de "auto-regulação".

"Essa auto-regulação será suficiente?" O reitor da Universidade de Coimbra não sabe responder. Mas acredita que "pelo menos temos obrigação de deixar os estudantes avançar no tratamento desta questão, de resolvê-la". João Gabriel Silva diz encarar como "positivo" o debate entretanto gerado na universidade.

Os incidentes que terão ocorrido em Coimbra foram classificados pelo ministro da Educação como "lamentáveis". Nuno Crato aconselhou maior civilidade aos estudantes que recebem os caloiros.