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Ex-futebolista amputado sobrevive com 215 euros

Ex-futebolista amputado sobrevive com 215 euros

Uma bala perdida deixou-o paraplégico aos 19 anos. Depois, uma queda na piscina ditou a amputação das duas pernas. A carreira de Ricardo no futebol foi curta. Aos 33 anos, sobrevive com 215 euros por mês.

Diz quem o viu nas camadas jovens do Alverca que tinha um futuro promissor. O "Caninóides" - alcunha de infância - chegou a treinar ao lado de nomes como Maniche e Deco, nos tempos áureos em que os ribatejanos militavam no escalão principal do futebol português. Hoje antigos colegas prestam-lhe homenagem, num jogo amigável, cuja receita reverte integralmente para Ricardo Vitorino.

Em 1999, para ganhar rodagem, foi emprestado uma época ao Machico. E foi ao serviço dos insulares que o sonho virou pesadelo. Numa deslocação ao Continente, acabou por ficar uns dias em Vila Franca de Xira para estar com a família. Numa saída noturna com amigos, viu-se envolvido numa rixa. Uma bala atingiu-lhe a medula e deixou-o paraplégico.

Esteve dois meses em coma e só se lembra do dia em que acordou no hospital. "Comecei a ver tudo branco à minha volta, gente que não conhecia. Levantei-me, dei dois passos, mas caí logo", recorda. Foram os últimos passos da sua vida. Mas se as pernas não mexiam, o cérebro fervilhava na esperança de conseguir o milagre. "Trabalhei muito na fisioterapia, no ginásio e os médicos destacavam a minha recuperação", conta.

Queda fatal na piscina

O pior aconteceu em 2006. Numas férias em Tróia, Setúbal, ao passar da cadeira de rodas para a piscina, caiu e fez uma ferida profunda. "Na altura, nem me observaram no hospital, porque não era a minha área de residência. Depois, em Vila Franca, desinfetaram-me a ferida e fui para casa. Dias depois, começaram as febres muito altas", conta ao JN.

O terrível veredito chegaria meses mais tarde. A infeção era irreversível. "O médico não me deixou opção: "Ou te amputo a perna ou morres", relembra. A resposta foi imediata: "Não quero morrer!". O pior é que a gangrena expandiu-se e viria a obrigar à segunda amputação.

Aos 33 anos, o futebol continua a ser a sua grande paixão, mas hoje limita-se a ver todos os jogos pela televisão. Vive com os pais e o único rendimento que aufere é uma pensão por invalidez de 215 euros. "Não tenho qualquer apoio, nem isenção. Dizem-me que nunca trabalhei, que não fiz descontos. Pois, tinha 19 anos, nem tempo tive para isso", desabafa, não escondendo a revolta pela situação.

Sem medicamentos

"Revolta-me que a pessoa que me fez isto ande por aí impune. Levou uma multa de 750 euros por posse ilegal de arma e mais nada. Nunca recebi qualquer indemnização", diz. A magra pensão serve-lhe de pouco. "Medicamentos? Não tomo! Não tenho dinheiro".

Impressionante é a força interior com que continua. "Tenho dois braços, tenho de me fazer à vida", diz aos amigos. Cortado o sonho do futebol, diz que os sonhos que lhe restam são simples. "Gostava de não ter de adormecer a pensar que vou acordar sem dinheiro para as minhas coisas. Que recebo a dia 10 e ao dia 11 já não tenho nada", conclui.

Como ajudar à distância sem ir ao jogo?

Quem quer ajudar o ex-futebolista, mas não pode assistir ao jogo de hoje, tem a possibilidade de comprar um ingresso ou deixar um donativo na conta de Ricardo. O NIB é 0035 0873 0006 3407 3007 6.

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