Venezuela

Fez-se passar por freira para voltar a ver a filha desaparecida durante 12 anos

Fez-se passar por freira para voltar a ver a filha desaparecida durante 12 anos

A portuguesa que há uma semana reencontrou, através do Facebook, a filha dada como desaparecida em 1999 nas enxurradas de Vargas, Venezuela, fez-se passar por uma freira para poder ver de perto a filha.

"Fiz-me passar por um grupo de São Vicente de Paulo, a que pertenço mas não sou de Caracas, sou de Valência. Uma monja disse-me que me metesse entre elas para que ninguém suspeitasse e tive quase todo o dia falando com as pessoas, queria agarrá-la, abraçá-la e dava-me medo que me rejeitasse", afirmou à agência Lusa, recordando uma festa promovida pelas irmãs no lar onde vivia a jovem dada como desaparecida.

Lucinda Nunes explicou que tudo aconteceu por acaso, que tem amigos no Facebook com quem conversa frequentemente e um dia estava à procura pelo apelido de uma freira, que tinha seis amigas na rede social. Entre elas estava a luso-descendente dada como desaparecida.

"Fiquei com o corpo todo a tremer, como estava atrasada para ir para o trabalho liguei ao meu irmão que está na Madeira e pedi-lhe que averiguasse", recorda. Depois ele ligou de volta e disse que era mesmo Angely [a filha], com quem tinha falado no Facebook. Ela era vítima de Vargas e estava em Carmem de Úria, o local onde se encontrava à data do desastre, embora não se lembrasse de nada, nem sequer da identidade dos pais.

A portuguesa lembra-se que no primeiro encontro a jovem ficou paralisada, mas na segunda visita abraçaram-se. Depois falou com uma juíza que ordenou um exame de ADN. Desde então tudo foi muito rápido: "Parece que estou sonhando".

Lucinda nunca perdeu a esperança de encontrar a filha, mas "já não sabia o que fazer porque quando dizia que estava viva as pessoas diziam que estava morta".

Durante todos estes anos, às noites pedia a Deus que "por favor não lhe falasse à promessa", porque não queria morrer sem primeiro recuperar a filha". Agora promete "dar-lhe toda a felicidade do mundo".

A história remonta à noite de 15 para 16 de Dezembro de 1999, quando chuvas torrenciais provocaram deslizamentos em quase 80 quilómetros de zona costeira do Estado de Vargas. As regiões mais afectadas foram Los Corales e Carmem de Úria, esta última declarada inabitável e hoje reduzida a escombros.

A casa onde a família de Lucinda Nunes, em Carmem de Úria, desapareceu, sobrevivendo apenas um familiar. A filha foi dada como desaparecida.

Três meses mais tarde, a portuguesa julga ter visto Angely em imagens de televisão, foi a um programa e mostrou uma foto, tendo sido informada por um telefonema que a luso-descendente esteve no Quartel de Paramacay, na altura da tragédia.

Depois de pedir a intervenção ao Governo de Portugal para recuperar a filha, dizendo que estaria em casa de uma professora com familiares militares, cujos cargos que ocupavam alegadamente dificultavam a sua recuperação, Lucinda Nunes viajou, em Outubro de 2001, para a Madeira, onde se encontrava de visita o Presidente Hugo Chávez, a quem pediu ajuda.

Chávez disse então que conhecia este caso e garantiu que as autoridades venezuelanas investigavam possíveis pistas do paradeiro da criança.

Não existem dados oficiais sobre o número de portugueses mortos nas enxurradas de Vargas, mas segundo fontes da comunidade terão morrido uma centena, 44 dos quais na localidade de Cármen de Úria. A comunicação social local avançou para um número total de vítimas mortais de 100 mil pessoas, que foi depois corrigido pelas autoridades para mais de 10 mil.

Outros Artigos Recomendados