Sociedade

Abandono de animais dispara e adoção cai abruptamente

Abandono de animais dispara e adoção cai abruptamente

A crise e a emigração são os novos motivos para o abandono de animais, que não para de crescer. Segundo a Associação Portuguesa dos Direitos dos Animais, terá triplicado. A SOS Animal fala em duplicação de casos.

As associações de defesa dos animais não têm tido mãos a medir. A União Zoófila está sem vagas para os pedidos, mas vê-se obrigada a abrir exceções para os cães deixados ao pé do portão. Não há um dia em que isso não aconteça, conta a responsável Margarida Saldanha. De cachorros bebés, a cães velhotes e doentes. Por outro lado, a procura de animais para adoção diminuiu.

Maria do Céu Sampaio, presidente da Liga Portuguesa dos Direitos dos Animais (LPDA), queixa-se também da entrega sorrateira nas imediações do organismo. Na última quinta-feira, foram largados cinco animais ali perto. Na LPDA, estima que o abandono "tenha triplicado no último ano e a adoção caído para metade".

Quanto a números totais sobre abandono, demonstra ser impossível obtê-los. "Era preciso possuir uma estatística dos que existem em todos os canis municipais, dos que estão em associações, e em boa verdade nunca se fez nada para isso".

Na perceção de Sandra Cardoso, vice-presidente da SOS Animal, "a adoção perdeu 70% e o abandono dito legal terá duplicado", considerando "os que são deixados nos canis e nas associações e ainda os que vão deambulando em parques e jardins". Em Cascais, na Margem Sul, na zona da Arrábida, salta à vista a dimensão do flagelo, conta. O que está a passar-se é que as pessoas querem atenuar a culpa e "ficam de consciência mais tranquila se os deixarem à porta das associações".

Às histórias mais comuns, divórcios, perda da casa, alergias dos filhos mais novos - muitas vezes com contornos que levantam suspeita aos profissionais das associações -, vieram juntar-se argumentos musculados: dificuldade em tratar do animal doente e emigração. As três responsáveis apontam a nova variável. "Vou-me embora, não tenho com quem o deixar" - é a justificação que se repete.

Maria do Céu Sampaio não esquece o casal que não tinha onde entregar o cão antes da partida para Andorra. Chorava copiosamente, enquanto desabafava o seu drama. Não teve êxito a tentativa de arranjar um dono substituto entre a família e amigos (esperava regressar dentro de um ano ou dois) e recorreu como último recurso à LPDA. "Estavam desesperados".

A crise agravou as dificuldades económicas das famílias, muitas delas deixaram de poder pagar a prestação dos apartamentos e viram-se obrigadas a mudar para casa dos pais, por exemplo, onde não encontram condições para manter animais.

Os lamentos têm diferentes matizes, mas também nem todos traduzem a verdade, acusa Margarida Saldanha. "Haverá insensibilidade. Um cão é para a vida. Apesar da sua condição, os sem-abrigo conseguem mantê-los".

A recente lei já promulgada, que apenas aguarda publicação em "Diário da República", poderá vir a travar o fenómeno, acredita Maria do Céu Sampaio. "Como vai criminalizar, se calhar as pessoas vão ter medo de o fazer. A Lei do Tabaco deu os seus frutos".

A legislação prevê pena de prisão e coimas para maus-tratos e morte. Em caso de abandono, pena de prisão até seis meses ou pena de multa até 120 dias.

Esterilização

O OMS recomenda a esterilização dos animais domésticos desde 1986. Em Portugal, pouco se tem feito nesse sentido, acusa Sandra Cardoso. Sintra e Lisboa são a exceção.

Perdura a ideia de que se vai acabar com a vida sexual dos animais aos esterilizá-los, quando não é assim. A veterinária Sandra Cardoso explica que as intervenções têm até vantagens, como evitar tumores.

O declínio na adoção é traduzido em números pela responsável da SOS Animal. Em 2007, mais de 800 animais daquele organismo ganharam uma família. Em 2013, foram apenas 48.

As associações são cada vez mais exigentes com os candidatos à adoção. Os futuros donos têm de assinar um termo de responsabilidade. A uma pessoa com problemas de ansiedade não entregam, por exemplo, um cão ativo.