Sociedade

Aumento da obesidade faz "disparar" diabetes entre os mais novos

Aumento da obesidade faz "disparar" diabetes entre os mais novos

Crianças e jovens são cada vez mais afectados pela doença, devido à má alimentação.

Vontade política, moralização na publicidade a produtos alimentares e aposta das autarquias em infra-estruturas desportivas são medidas essenciais para prevenir a diabetes, uma doença que atinge cada vez mais os jovens.

Medidas que têm de ser simultâneas e devem constituir uma "task force" no combate à diabetes, conforme disse ao JN Luís Gardete Correia, presidente da Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal, que, hoje, dia mundial da doença, promove um fórum sob o lema "educação e prevenção".

Em Portugal, estima-se que 11,7% da população (mais de 900 mil pessoas) tenham diabetes. Mas o que mais preocupa é o aumento da obesidade infantil e juvenil. Não havendo números sobre quantos destes jovens têm já a diabetes associada - esta semana arrancou o registo nacional da pessoa com diabetes, que dentro de um ano poderá estar concluído -, sabe-se que essa é uma das complicações de que poderão vir a sofrer. Um estudo recente, elaborado pela Plataforma contra a Obesidade, refere que 30% das crianças portuguesas sofrerão de excesso de peso e 10% padecem já de obesidade.

Uma percentagem que Carla Pedrosa, nutricionista do Hospital de Aveiro e professora na Faculdade de Nutricionismo da Universidade do Porto, confirmou no terreno, quando decidiu fazer um rastreio das crianças com excesso de peso no concelho. Detectou os mesmos 30% com peso a mais e 10% obsesas.

Um fenómeno associado aos modernos estilos de vida. Pouca actividade e uma hiper-alimentação, baseada numa elevada carga calórica. Para o lanche, na escola, levam bolos em vez do tradicional pão com queijo ou fiambre. E bebem muitos refrigerantes. "Perdeu-se o hábito de beber água à refeição", diz, lembrando, também, que em casa, muitas vezes por falta de tempo dos pais, "recorre-se a refeições mais rápidas", geralmente à base de fritos.

O número de horas na escola aumentou, mas não aumentou a actividade física. Ela é praticamente a mesma existente antes do alargamento dos horários. Para além disso , "nem todos têm disponibilidade para frequentar uma actividade física depois das aulas".

A vantagem deste estudo, conforme refere a nutricionista, é que foi possível levar estas crianças ao hospital, onde podem ser acompanhadas e sensibilizadas para hábitos mais saudáveis.

A proximidade com os doentes, como confirmou um estudo apresentado esta semana, dá frutos positivos. Um rastreio à prevalência da diabetes em 11 centros de saúde mostrou um número elevadíssimo de doentes (30%, muito acima das previsões internacionais), mas mostrou, também, que a sensibilização funcionou. Nos doentes a quem foi proposto que alterassem hábitos de vida foram detectadas, numa segunda visita, seis semanas depois, melhorias significativas - menos mais de 600 gramas de peso e menos um centímetro de perímetro abdominal, disse Teresa Mota, da Fundação Portuguesa de Cardiologia, coordenadora do estudo.

Educação para a doença é precisamente o que se faz na Associação Protectora dos Diabéticos Portugueses. Mas, como diz Gardete Correia, é preciso muito mais. São precisas políticas públicas nas escolas, atenção aos alimentos disponíveis nas cantinas escolares e informação às crianças e aos pais. Para além disso, tem de haver alguma moralização na publicidade aos produtos alimentares. E políticas locais, ao nível das autarquias, de desenvolvimento "de espaços verdes e fomento da actividade desportiva".