Sociedade

Católicos revoltados com possível fim do feriado de Todos os Santos

Católicos revoltados com possível fim do feriado de Todos os Santos

O fim do feriado de 1 de novembro, admitido pela Igreja católica nas negociações com o Estado, está a revoltar aqueles que olham para o dia de Todos os Santos como o momento especial para honrar os falecidos.

Nesse dia, os cemitérios estão arranjados pelas famílias, uma tradição relacionada com o Dia dos Fiéis Defuntos, a 2 de novembro, que parte do povo português ainda valoriza. Por isso, confrontados com a possibilidade do dia deixar de ser feriado, muitos dos crentes que estavam esta manhã em cemitérios rurais de Viana do Castelo manifestaram a sua revolta contra esse "erro crasso" e "heresia", com a bênção da hierarquia católica.

Filomena Dias tem 50 anos e todas as semanas vai ao cemitério de Barroselas pôr flores na sepultura dos pais: "Acredito que não vão tirar o feriado de 1 de novembro. Não pode ser, é um dia que tem um significado muito especial, não acredito que a Igreja deixe cair esse feriado. O 15 de agosto também é um dia muito bonito, mas 1 de novembro é uma data com alma".

O fim do feriado é um "erro crasso", disse Clementina Lima, 37 anos, que estava no cemitério de Alvarães a "compor" a sepultura dos seus entes queridos.

Para Clementina, o 1 de novembro é "um dia muito especial", em que se "venera os que já partiram", pelo que "mexer nesse feriado é, de alguma forma, mexer na alma de todos nós".

No ano passado, o Governo decidiu reduzir os feriados nacionais e impôs como regra o fim de dois religiosos e dois civis. Inicialmente, os bispos portugueses apresentaram como propostas a abolição do feriado do Dia do Corpo de Deus e do Dia da Assunção, a 15 de agosto. No entanto, segundo o jornal Público, a proposta do Vaticano passa por manter o 15 de agosto feriado, preferindo deixar cair o 1 de novembro, uma data que é menos celebrada no resto do mundo católico.

Mas Clementina Lima prefere as tradições nacionais às datas mundiais marianas: "acabe-se com o 15 de agosto, porque o 1 de novembro é um dia muito, muito especial".

Ali ao lado, no cemitério de Barroselas, Joaquim Costa Pereira, 72 anos, considera mesmo que "acabar com o feriado do Dia de Todos os Santos é uma heresia: Estamos a falar de um dia sagrado, que mexe com os sentimentos das pessoas. Só quem não tem 'lá' alguém é que não entende o significado deste dia".

No cemitério de Vila de Punhe, o sentimento era em tudo idêntica, com um misto de perplexidade, incredulidade e revolta pelo eventual fim do feriado de 1 de novembro.

"Não é justo, nem é bem feito, nem pode caber na cabeça de ninguém. Este feriado não é uma festa, mas é oração, recolhimento, reencontro com os que partiram. Uma homenagem cheia de sentido e de emoção. Por favor, não o deixem acabar. Todos menos este", disse Lúcia Carvalho, visivelmente emocionada.