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Frequência de tornados pode aumentar

Frequência de tornados pode aumentar

Perito em alterações climáticas diz que era importante reforçar a rede nacional de radares meteorológicos

As alterações climáticas e o aquecimento global vão aumentar a probabilidade de ser cada vez mais frequente a ocorrência de tornados em Portugal. O alerta é de Filipe Duarte Santos, professor de Física, que defende o reforço da rede de radares meteorológicos.

O especialista em alterações climáticas e professor na Faculdade de Ciências de Lisboa defende que o aumento da temperatura média global da atmosfera terrestre vai contribuir para que fenómenos severos e extremos como o que anteontem, terça-feira, se verificou na zona centro do país - um tornado que varreu uma extensão de cerca de 30 quilómetros, passando por Tomar, Ferreira do Zêzere, Sertã e Belmonte - sejam cada vez mais prováveis.

"Quando a temperatura é mais alta, o ar tem mais vapor de água e, havendo mais humidade no ar, a probabilidade deste tipo de fenómenos ocorrerem é maior", disse, ao JN, explicando que a formação dos tornados deve-se ao "confronto" entre uma massa de ar quente e húmido e uma massa de ar frio e seco que desencadeia movimentos de rotação ascensionais capazes de arrastar pessoas e objectos muito pesados.

Este especialista acredita que Portugal já está a sofrer com estas alterações do clima, visto que nos últimos anos se tem observado uma média de um a dois tornados por ano, enquanto entre 1936 e 2004 - ou seja, num intervalo de 68 anos - foram registados 42 tornados em Portugal.

Por esta razão, o especialista defende que se justifica o investimento no reforço da rede de radares meteorológicos e estranha a demora nesta decisão. "Em 1987 e 88, fui vice-presidente do Instituto de Meteorologia e já nessa altura, há mais de 20 anos, havia um plano detalhado para a instalação de um radar meteorológico em Portugal", disse, admitindo que seria uma ferramenta importante para detectar atempadamente o fenómeno e alertar as populações.

Em Portugal existem dois radares meteorológicos (um no Algarve, outro em Coruche), mas só o do Sul do país está em funcionamento e registou a formação do tornado. Em declarações à SIC, a meteorologista Teresa Abrantes explicou que os tornados são fenómenos "muito localizados" e de "difícil previsão" e adiantou que o tornado de anteontem poderá ter atingido os 200 km/hora, o que o coloca no nível 2 da escala de Fujita, uma escala de 0 a 5 que mede a intensidade destes fenómenos.

Idália Mendonça, meteorologista que ontem estava de serviço no Instituto de Meteorologia, confirmou ao JN que os tornados "só são previsíveis a muitíssimo curto prazo, menos de uma hora" e adiantou que as condições de forte instabilidade atmosférica registadas anteontem a Oeste do Continente, que desencadearam este fenómeno, já se tinham dissipado.

O tornado mais intenso registado em Portugal (de grau F3) ocorreu em Castelo Branco, a 6 de Novembro de 1954. Causou cinco mortos e 220 feridos e destruiu a estação meteorológica local. Mas só mais recentemente - após a ocorrência de um tornado em Vila do Conde, a 21 de Abril de 1999 - o fenómeno começou a ser mais documentado. Entre 1936 e 2004, estão contabilizados 42 tornados em Portugal.

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